Significado de Devaneio: 1. Estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens; 2. Quimeras, fantasias, ficções.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Mundo Pequeno

Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
-Gostar de fazer defeitos na frase é muito
saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da
vida um certo gosto por nadas...
E se riu.
Você não é de bugre? - ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas -
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.(Manoel de Barros)

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Imagem - Michael Parkes

Toda vida eterna é provisória. A tranquilidade é cheia de alternâncias.

Serão semanas de infindável paciência, de alegria intacta, e algumas

horas de ressentimento e azar. Nada vai mudar.

Até o mar tem dias de ressaca.

Não podemos aumentar a exigência a cada questionamento, formular

paranoias e teorias de conspiração, esperar desmascarar nossa companhia.

No fundo, ninguém se ama o suficiente para ser amado.

É aceitar o desvio e retornar para perto do ponto.

Aproximar-se com a igual gana do início, esforçar-se novamente para

conquistar a empatia da solidão.

E nunca ter controle sobre o resultado.(Fabrício Carpinejar)
Não há fim para as coisas que podem ser conhecidas

e sabidas. O mundo dos saberes é um mundo de

somas sem fim. É um caminho sem descanso para

a alma. Não há saber diante do qual o coração possa

dizer: " Cheguei, finalmente, ao lar." Saberes não são

lar. São, na melhor das hipóteses, tijolos para se

construir uma casa. Mas os tijolos, não sabem nada

sobre a casa. Diz o Tao-Te-Ching : " Na busca do

conhecimento a cada dia soma uma coisa. Na busca

da sabedoria, a cada dia se diminui uma coisa.(Rubem Alves)

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

"Some wind for old windmil"
Imagem: Ceslovas Cesnakevicius
Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer coisa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...

Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me coisas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .

Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.

Alberto Caeiro, Heterônimo de Fernando Pessoa

A Morte Absoluta

Morrer.
Morrer de corpo e alma.
Completamente.

Morrer sem deixar o triste despojo da carne, a exangue máscara de cera,
Cercada de flores, que apodrecerão – felizes! – num dia,
Banhada de lágrimas
Nascida menos da saudade do que do espanto da morte.

Morrer sem deixar porventura uma alma errante...
A caminho do céu?
Mas que céu pode satisfazer teu sonho de céu?

Morrer sem deixar um sulco, um risco, uma sombra,
A lembrança de uma sombra
Em nenhum coração, em nenhum pensamento,
Em nenhuma epiderme.

Morrer tão completamente
Que um dia ao lerem o teu nome num papel
Perguntem: “Quem foi?...”
Morrer mais completamente ainda
- Sem deixar sequer esse nome.

Manuel Bandeira

Para compreender, destruí-me.

"Calling for fog"

Imagem: Ceslovas Cesnakevicius

Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci, de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la. A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distração especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.


Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O que os Olhos Vêem (Eyes do more than see)

Depois de centenas de bilhões de anos, ele de súbito pensou em si mesmo como Ames. Não a combinação de comprimentos de ondas que era agora, através de todo o Universo, o equivalente de Ames, mas o som, o som daquele nome. Ele experimentou o ressurgir de uma memória muito tênue – a memória daquelas vibrações sonoras que ele já não captava e que nunca mais poderia captar.
Aquele novo projeto estava tornando sua memória mais sensível a tantas coisas antigas, coisas remotas, de muitos éons atrás. Ele comprimiu o vórtice de energia que constituía sua individualidade e suas linhas de força tornaram-se mais intensas, para além das estrelas.
Daí a pouco, captou o sinal de Brock, em resposta.
Claro que podia contar aquilo a Brock, pensou Ames. Claro que poderia contar a alguém.
O cambiante padrão energético de Brock alinhou-se ao seu.
-Não vem conosco, Ames?
-Claro.
-Vai tomar parte no cuncurso?
-Sim! – As linhas de força de Ames pulsaram de modo errático. – Com certeza. Estive pensando numa nova forma de arte. Algo... fora do comum.
-Um desperdício de esforço. Você acha que se pode pensar numa nova variação, depois de duzentos bilhões de anos? Não pode haver nada novo.
Por um instante Brock mudou de fase e saiu de alinhamento, de modo que Ames teve que ajustar às pressas suas linhas de força. Ele captou o perpassar de outros pensamentos enquanto o fazia – a visão da poeira nebulosa das galáxias de encontro ao veludo negro do Nada e as linhas de força que pulsavam em infinitas formas de vida energética, no espaço entre as galáxias.
Ames disse:
-Por favor, Brock, absorva meus pensamentos. Não se isole. Estou pensando em... em manipular Matéria. Imagine! Uma sinfonia de Matéria. Por que se preocupar com a Energia? Claro que não há nada de novo na Energia. Como poderia haver? E isso não significa que devemos nos voltar para a Matéria?
-Matéria!...
Ames interpretou as vibrações energéticas de Brock como de repulsa. Respondeu:
-Por que não? Já fomos Matéria certa vez, há... há... oh, não sei, talvez um trilhão de anos! Por que não construir objetos com alguma substância material, ou formas abstratas, ou... ouça bem, Brock... por que não construir uma réplica de nós mesmos feita de Matéria, do jeito que fomos um dia?
-Não me lembro disso – respondeu Brock. – Ninguém se lembra.
-Eu lembro – tornou Ames, com energia. – Tenho pensado nisso o tempo inteiro e estou começando a lembrar. Brock, deixe-me mostrar-lhe. Diga-me se estou certo ou não. Por favor.
-Não isto é uma bobagem. É... repugnante.
-Deixe-me tentar, Brock. Nós somos amigos. Temos pulsado juntos nossas energias desde o início, desde o momento em que nos tornamos o que somos agora. Brock, por favor!
-Está bem. Mas rápido.
Ames não tinha experimentado um tal tremor em suas linhas de força desde... desde quanto tempo? Se ele tentasse agora diante de Brock e tudo desse certo, ele teria coragem para manipular a Matéria diante de uma platéia de Seres-energia que esperavam há éons pelo surgimento de alguma novidade.
A Matéria era extremamente rarefeita naquele espaço entre as galáxias, mas Ames a reuniu pacientemente, recolhendo cada fragmento esparso entre tantos anos-luz cúbicos, escolhendo átomos, moldando aquilo até dar-lhe uma consistência quase de argila e compor uma forma ovóide, ligeiramente mais larga na parte de baixo.
-Não se lembra, Brock? –perguntou ele com suavidade. –Não era algo parecido com isto?
O vórtice de Brock estremeceu em fase.
-Não me faça lembrar! Eu não lembro!
-Isto era a cabeça. Chamavam assim... cabeça. Eu me lembro tão bem, tão bem... tenho vontade de dizê-lo. De dizê-lo em sons. –Ele esperou um pouco, depois falou: -Veja. Lembra-se disso?
Na parte superior do ovóide apareceu: CABEÇA.
-O que é? –perguntou Brock.
-A palavra que indica cabeça. Os símbolos que correspondem aos sons. Não me diga que não lembra, Brock.
-Havia algo... –disse Brock, hesitante. –Algo no meio... –Uma saliência vertical começou a se formar.
Ames exclamou:
-Isso, Nariz, é como se chamava! –Sobre a saliência apareceu NARIZ. –E isto dos dois lados são olhos. –Apareceram OLHO ESQUERDO – OLHO DIREITO.
Ames considerou com atenção o que tinha acabado de formar e suas linhas de força pulsaram pausadamente. Aquilo lhe agradava, de fato?
-Boca – disse ele, sendo percorrido por leves estremecimentos. –E queixo, e pomo-de-adão, e clavículas. É incrível... como essas palavras retornam. – As palavras apareceram sobre a forma.
Brock disse:
-Eu não penso nisso há centenas de bilhões de anos. Por que você tinha que me lembrar? Por quê?
Ames estava imerso em seus pensamentos.
-Existe algo mais... – disse. –Órgão para escutar. Alguma coisa que captava as ondas sonoras... Ouvidos! Mas, onde é que ficavam? Não consigo lembrar, não sei onde colocá-los...
Brock gritou de súbito:
-Deixe isso! Ouvidos, ou o quer que seja! Não lembre!
Ames perguntou, hesitante:
-Mas... o que há de mal em lembrar?
-Por que a superfície não era assim, áspera e fria, do jeito que está aí! Era macia e quente! Porque os olhos eram vivos e cheios de ternura, e os lábios da boca estavam trêmulos, e eram muito suaves... de encontro aos meus. – As linhas de força de Brock estavam vibrando e sacudindo-se de um lado para outro.
-Sinto muito! – disse Ames. –Sinto muito.
-Você me fez lembrar que um dia fui uma mulher e conheci o amor, que os olhos não servem apenas para ver e que eu não tenho mais olhos para fazer... o que eu queria fazer agora. –Num impulso repentino, ele agregou mais matéria aos olhos daquela forma tosca de cabeça e disse: -Eles podem fazer isto agora. –Modou de direção e partiu.
Ames olhou aqui e lembrou que ele, um dia, tinha sido homem. A força do seu vórtice fendeu em duas metades aquela cabeça e ele partiu por entre as galáxias seguindo o rastro energético deixado por Brock, rumo à fatalidade sem fim das formas vivas.
Os olhos da cabeça despedaçada da Matéria ainda brilhavam com a umidade ali depositada por Brock em forma de lágrimas. A cabeça da Matéria fez o que os Seres-energia não podiam mais fazer e chorou por toda a humanidade e pela frágil beleza dos corpos que eles tinham descartado um dia, um trilhão de anos atrás.
(Isaac Asimov)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

O silêncio não é a negação da palavra, como a

palavra não é a negação so silêncio. Há silêncios

eloquentes, como há palavras vãs. É na riqueza

do nosso silêncio interior que se forma a qualidade

de nossas palavras. O homem é a única criatura que

fala. Mas é também a única que sabe dar ao

silêncio o seu sentido profundo.(Baltasar Grácian)
É possível que nós, criaturas terrestres, que começamos

a agir como habitantes do Universo, não sejamos mais

capazes de compreender, ou seja, de pensar e exprimir

as coisas que, no entanto, somos capazes de fazer.

Neste caso, tudo se passaria como se nosso cérebro, que

constitui a condição material, física de nossos pensamentos,

não pudesse mais acompanhar o que fazemos, de modo que

doravante teríamos realmente necessidade de máquinas

para pensar e para falar em nosso lugar.(Hannah Arendt)

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

...que a importância de uma coisa não se mede com fita métrica
nem com balanças nem barômetros etc.
Que a importância de uma coisa há que ser medida
pelo encantamento que a coisa produza em nós.(Manoel de Barros)

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011


Na infância

Bastava sol lá fora

e o resto se resolvia.(Fabrício Carpinejar)