Significado de Devaneio: 1. Estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens; 2. Quimeras, fantasias, ficções.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

A LUA E O SOL


A Lua quer namorar com o Sol
Mas ele foge, está cabreiro
Disseram que a Lua está apaixonada pelo Universo inteiro...

Mas o Sol guarda seu amor pela Lua
Sempre que pode, a procura
Como quem não quer nada...
E a Lua matreira que é
Joga um charme em cima do Sol
E ele brilha extasiado
Pensando pela Lua ser amado
E na verdade é! Do jeito dela, o ama...
Mesmo que o Sol nunca a tenha tocado
Nesse Universo dela, se sente amado...

A Lua é faceira
Menina dengosa
Joga charme, seduz
Aos outros astros
Que a cortejam
Mas é do Sol, seu coração
Disso, ele não tenha dúvida não!

Ultimamente desencontros estão deixando a Lua chateada...
Quer pelo Sol, ser beijada...
Mas nesse eclipse que se dá
Muito mais que beijos, a Lua quer...
Quer o Sol-homem, fazendo-a, sua Lua-mulher

sábado, 26 de dezembro de 2009

Onde os lábios


Os lábios.
Distante, arrefecida chama.
Não só os lábios, também as estrelas
são distantes.
E os bosques. E as nascentes.
Também as nascentes são distantes.
As nascentes onde os lábios,
onde as estrelas bebem..
Só o deserto é próximo, só
o deserto.(Eugénio de Andrade)

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009


...da lua ela não tinha receio porque era
mais lunar que solar e via de olhos bem
abertos nas madrugadas tão escuras
a lua sinistra no céu.
Então ela se banhava toda nos
raios lunares...
E ficava profundamente límpida.

(Clarice Lispector)

A quinze metros do arco-íris o sol é cheiroso.(Manoel de Barros)

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O Castelo



Eu me sinto tão sozinha
Em meio às flores do jardim
Seu perfume é um consolo
Mas ainda falta um pedaço em mim.

Para onde foi,
Para onde foi o meu coração?
Em que terras agora estará
Ainda se lembrará de sua paixão?

Em terras além do mar
Além dos campos e montanhas
Aonde vive agora,
Em que aventuras estranhas?

Meu castelo esquecido...
Em meio à floresta, perdido
Está tão solitário agora
Á solidão do mar unido.

Eu vejo as nuvens ao longe
E os pássaros em seu vôo encantado.
Digam-me amigos queridos
Que notícias trazem do meu amado?

Sobre esta terra ainda caminha
Ou os anjos já o chamaram
Para o seu reino celeste,
E minhas preces de nada adiantaram?

Onde ele estará
Que ninguém quer dizer?
Será que não podem
Permitir-me ver?

Eu olho o Espelho
E a visão é turva e escura.
Nem a realidade me mostra
A realidade tão dura.

Mas meu coração
Diz que não é verdade
E que um dia ele estará comigo
Para sempre, até a eternidade.

Sonho

São flores azuis além das montanhas
No palácio de cristal reluzente
Dele emana uma doce música
Pela floresta silente.

Tão longínquo lugar
Dos homens esquecido,
Que a séculos dorme
No bosque escondido.

Tão longínqua e perfumada
A estranha floresta,
Ela realmente ainda existe
Ou nada mais resta?

O vento trás
Uma alegre melodia
E som de risos
Na noite tardia.

Há luzes no castelo
As janelas iluminadas
E por toda parte
As flores amadas.

E taças de cristal azuis
Tão brilhantes
Que ao longe reluzem
Como diamantes.

Mas a manhã chega
E com ela o despertar
Agora só existe a realidade
Eu preciso despertar.

Triste eu volto da minha antiga casa.
A revi tão brevemente
Nas asas do sonho
Na noite dormente.

Não foi o bastante
Para matar a saudade
Apenas por um breve instante
Eu revi a minha cidade.

Onde estarão agora
Os meus amigos?
Tão mágicos, tão antigos ...

A Dança



Naquela noite escura
Eu estava sonhando
E devagar veio até mim
Uma sombra caminhando.

O escuro ocultava
O vislumbre de um olhar.
E na sala escura
Ele pôs-se a dançar.

Rodando, rodando
Em volta de mim,
Eu conheço aquela sombra
Quem é que dançava assim?

Segurou as minhas mãos
E eu o vi pálido e frio.
Mas eu sei que não havia ninguém ,
Que estava tudo deserto e vazio.

Convidou-me para dançar
E eu aceitei o seu abraço
Aquele olhar só tinha um dono -
O susto feriu-me como aço.

Aquela expressão tão doce
No rosto branco como o mármore
Ele estava parado
Como no jardim as árvores.

Mas ele sorria para mim
E alegre ele estava
Eu novamente estava abraçando
Quem eu mais amava.

De onde ele veio,
Será isso possível?
Será apenas um sonho
Ou um pesadelo horrível?

Meu amado esta noite
Deixou seu túmulo silencioso
E veio ver-me de novo,
A saudade é um sentimento horroroso.

Talvez ele nem saiba
O que aconteceu
Talvez não tenha percebido
Que ele morreu.

Então vem ver-me de noite
O escuro é mágico e misterioso.
O frio da noite
É um conto amoroso.

Eu beijo seus lábios frios
E acaricio seu rosto pálido
Minha cabeça em seu peito –
É ainda o seu abraço tão cálido!

Então adeus amado
Eu sei que chegou a hora
De se despedir
Que você tem de ir agora.

Tão alegre é o encontro
E tão triste a despedida
Sem você é tão vazia
E cinzenta a minha vida.

Vá com a minha lembrança
O seu beijo me fez sorrir
E lembrando a nossa alegra dança
Nós vamos em paz dormir.

A Louca da Floresta

Névoa,
A densa névoa cai sobre as árvores
Cobrindo tudo,
Não se vê nada além da densa névoa.

O frio sepulcral
Esconde a dança louca
De uma louca Bruxa.

Ela dança com os lobos
Ela dança com as árvores
Ela dança com os espíritos.
No silêncio,
Ela não teve outra escolha
Além deste refúgio secreto.

Primeiro, a perseguição
Depois, o adeus
E a fuga...

Dança, dança feiticeira
Ninguém sabe se já é morta ou se ainda vive.

E ninguém jamais saberá...


Allegra Lillith

Bela Floresta

Floresta antiga e mágica
Em meio às montanhas está dormindo
Escondida pela névoa, cada vez mais está indo
Do mundo real.

Logo ela só existirá
Em lendas de dias passados.
Floresta que dos Deuses
É o jardim encantado.

Floresta silenciosa
Em que país está perdida?
Deixou este mundo para sempre
E triste foi a despedida.

Tão majestosa
Em seus lagos encantados
No sagrado recanto.
É um sonho distante,
Agora tão longe da humanidade.
Bela Floresta
Maior que o medo é a saudade.


Allegra Lillith

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Dreaming, by Jerry


Queria ver o pôr do sol com você...
Sentar na areia da praia
ficar de mãos dadas
e curtir esse momento com você...
Recostar a minha cabeça em seu ombro
fechar os olhos e apenas sentir
toda essa emoção única e doce que sinto
quando estou perto de você.
Ficar em silêncio só observando
e sentindo toda essa emoção
porque quando estou com você
consigo enxergar coisas
que antes não via.
E depois ali de mãos dadas
ver nos céu as primeiras estrelas aparecerem
e a lua...ahhh a lua...
que beleza e encantamento
dá até para fazer poesia
ao ver a luaem teus olhos...
Queria apenas poder curtir
todos esses pequenos momentos
com você.(Soninha Nunes)

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Vem como presente surpresa
um painel coberto de emoção
despertando os meus sentidos
fazendo sonhar e sair do chão

A magia sempre em alerta
fez dela uma Fada de verdade
a fantasia ficou apaixonada
sentiu toda a intensidade

Tem seus traços tão coloridos
passando a impressão de sabor
os sentimentos aparecem dançando
enfeitados com suavidade da flor

Seus passos são como a brisa
deixando seu chão estrelado
o céu fica cobertinho de flores
perfumando os versos amados
(Soninha BB)

Colorindo cores...

...brincar de fazer cores a partir de cores, deixa as cores mais coloridas...
...é só pingar um sabor diferente que não param de se colorir, sabolorir...
...brincam, criam, trasformam-se, aparencem os mega-tons, vira música...
...música colorida, cores saboridas, tons diminutos, transparências ondulantes...
...ai, ai...que banzé de cor...imagino todas as cores como primárias, de jardins primários...

domingo, 20 de dezembro de 2009


Sou fadinha bem levada
quero muito aprontar
brincar entre as flores
todas elas desfolhar
Quero nadar lá no rio
carona com sapo vou pegar
catarei muitas pedrinhas
bem fundo vou mergulhar
Vou bater minhas asinhas
juntinho com as borboletas
sentarei no cogumelo
para fazer muitas caretas
Vou atrás dos vaga-lumes
querendo tudo iluminar
com a minha varinha mágica
muitas joaninhas vou encantar(Soninha BB)

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Nebulosa do Cone(região de formação estelar NGC 2264)

Berçário estelar onde nuvens de gás e poeira são alimentados por ventos energéticos oriundos de recém-nascidas estrelas.(O véu avermelhado da Nebulosa do Cone é produzido pelo brilhante hidrogenio gasoso.)
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto, é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.(António Gedeão)

Às vezes tenho ideias, felizes,
ideias sùbitamente felizes, em ideias
e nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Porque escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta
com que alguém escreve a valer o que nós aqui traçamos?...

(Fernando Pessoa)

Imagem: Salvador Dalí(Book Transforming Itself into a Nude Woman, 1940 - Oil on canvas, 41.3 x 51 cm.)

E o esplendor dos mapas, caminho abstracto para a imaginação concreta,
letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha.

O que de sonho jaz nas encadernações vetustas,
nas assinaturas complicadas(ou tão simples e esguias) dos velhos livros.

(Tinta remota e desbotada aqui presente para além da morte,
o que de negado à nossa vida quotidiana vem nas ilustrações,
o que certas gravuras de anúncios sem querer anunciam.

Tudo quando sugere, ou exprime o que não exprime.
Tudo o que diz o que não diz,
e a alma sonha, diferente e distraída.

O enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos!)(Fernando Pessoa)


quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Barulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.
No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.

(Clarice Lispector)

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Não sou pra todos. Gosto muito do meu mundinho.
Ele é cheio de surpresas, palavras soltas e cores misturadas.
Às vezes tem um céu azul, outras tempestade.
Lá dentro cabem sonhos de todos os tamanhos,
mas não cabe muita gente.
Todas as pessoas que estão dentro dele não estão por acaso.
São necessárias.(Caio Fernando Abreu)

Eu sou?



Foto: Guy Bourdin
Eu sou o olhar da saudade
que brilha numa mente sem lembranças de alguém
que cintila, enquanto o vento paira
num deserto submarino,
localizado no excluído.

Eu sou a aurora boreal
do silêncio ensurdecedor,
que os prédios fazem
quando susurram para si mesmos.

Eu sou um pouco de nada misturante com detalhes;
O revés do verso descrito numa simples folha de papel;
Um único caminho com diversos atalhos,
que levam para uma mesma saída.

E sobre mim, silenciosa e triste
a via-láctea se desenrola,
como um jarro de lágrimas ardentes.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Sabedoria do Mundo

Não fiques em terreno plano.
Não subas muito alto.
O mais belo olhar sobre o mundo
Está a meia encosta.

Friedrich Nietzsche, in "A Gaia Ciência"

Dactilografia




Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ...

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterônimo de Fernando Pessoa

domingo, 13 de dezembro de 2009

Jornal de Serviço



I
Máquinas de lavar
Máquinas de lixar
Máquinas de furar
Máquinas de curvar
Máquinas de dobrar
Máquinas de engarrafar
Máquinas de empacotar
Máquinas de ensacar
Máquinas de assar
Máquinas de faturamento

II
Champanha por atacado
Artigos orientais
Institutos de beleza
Metais preciosos
Peleterias
Salões para banquetes e festas
Condimentos e molhos
Botões a varejo
Roupas de aluguel
Tântalo

III
Panelas de pressão
Rolos compressores
Sistemas de segurança
Vigilância noturna
Vigilância industrial
Interruptores de circuito
Iscas
Encanadores
Alambrados
Supressão de ruídos

IV
Doenças da pele
Doenças do sangue
Doenças do sexo
Doenças vasculares
Doenças das senhoras
Doenças tropicais
Câncer
Doenças da velhice
Empresas funerárias
Coletores de resíduos

V
Papéis transparentes
Vidro fosco
Gelatina copiativa
Cursinhos
Amortecedores
Resfriamento de ar
Retificadores elétricos
Tesouras mecânicas
Ar comprimido
Cupim

VI
Mourões para cerca
Mudanças de pianos
Relógios de igreja
Borboletas de passagem
Cata-ventos
Cintas abdominais
Produtos de porco
Peles cruas
Peixes ornamentais
Decalcomania

VII
Peritos em exame de documentos
Peritos em imposto de renda
Preparação de papéis de casamento
Representantes de papel e papelão
Detetives particulares
Tira-manchas
Limpa-fossas
Fogos de artifício
Sucos especiais
Ioga

VIII
Anéis de carvão
Anéis de formatura
Purpurina
Cogumelos
Extinção de pêlos
Presentes por atacado
Lantejoulas
Sereias
Souvenirs
Soda cáustica

IX
Retificação de eixos
Varreduras mecânicas
Expurgo de ambientes
Revólver para pintura
Pintores a pistola
Cimento armado
Guinchos
Intérpretes
Refugos
Sebo

Composição: Carlos Drummond de Andrade

Canção por acaso

Foto: Guy Bourdim
Sem ordem
Sem harmonia
Sem belo
Sem passado
Sem arte
Sem artéria
Sem matéria
Sem artista
Sem voz
Sem formato

Sem escalas
Sem achados
Sem sol
Sem tom
Sem melodia
Sem tempo
Sem contratempo
Sem mito
Sem rito
Sem ritmo
Sem teoria

Uma canção por acaso
Uma música sem som
Uma canção por acaso
Uma canção

Tons

Roxos
Todos
Pretos
Partes
Pratas
Andrades
Azuis
Azares
Amarras
Amar
Elos
Amargores
Calipsos
Cortesias
Cortes
Cores e
rancores
Luzes
Milagres
Lilases
Rosas
Guimarães...

Mulatos
Dourados
Rubores
Castigos
Castanhos
Castores
Havanas
Avanços e
brancos
Cobranças
Cinzentos
Cimentos
Crianças
nas sarjetas
Nojentas
Imagens
Violeta
Magentas
Laranjas
Matizes
Cremes
Crimes
Cobaltos
Assaltos
Turquesas
Pérola
aos hipócritas
Ocres
Terras
Telhas
Gelos
Gemas

Marítimo


Pela orla
Pela beira
Pela areia afora
A tarde inteira
Pela borda
Pedra portuguesa
Pelo Pepê
Pelo Copa
Pela costeira
Pelo recorte do mapa
Pela restinga
Pela praia
Até Marambaia
Até onde vai a vista
No Posto Nove
A onda revolta
Devolve o surfista
Pelo Posto Nove
Nove e meia
A onda branca preta branca preta
A praia vermelha
Cobalto
No alto
No azul marinho
A nuvem prata
A espuma pérola
A areia marfim

Tarda-ente


...tarde sob nuvens,
luz?
sol?
vento?

...tarde sob teto,
apagada?
escondida?
sem?

...tarde sob revelações,
exposta?
criticada?
sempre?

...tarde sob tardia,
tardando tardamente tardante;
tardanando o tardanar tardio;
tardaindo o tardanudo a tardar."

sábado, 12 de dezembro de 2009


Navegaste pelas estrelas
e nadaste na magia plena
dos meus sonhos,
vestido com velas brancas
em fantasias que conceberas.

Bebi a pureza da tua alma
enquanto ouvia teu sorriso explodir
nas paredes adormecidas dos teus passos
que perderam-se no tempo.

Desejei que naufragasses em mim
como um perdido feliz
musicado pelos ponteiros
que marcam a espera de uma chegada.

Não sei de onde vens
e nem como o sinto...
...só a dor é orquestrada
nos tropeços da minha alma.(Conceição Bentes)

...organizante de águas...


...não que eu organize as águas, elas sim, acredito, organizam-me...
...oportunidades únicas, voar, ver o reflexo do azul, conseguir
elementos dispostos, o ensurdecedor silêncio sem tempo do
mergulho, enfim...
...quando organizado pelas águas, minha superfície fica sem ondulações,
consonante, como quando ouve-se a voz de fadas...
...nisso, as águas conseguem ver-se refletidas em mim, constatando
sua atual desorganização...
...como também querem ser reflexíveis, organizam-se ante meus olhos,
consonando-se-me...
...vejo meu reflexo(ai, que vontade do mergulho em mim, na água), sei
que os elemento foram dispersados, organizados, fica a transparência
espelhar...
...apenas observando, sem saber que observado sou, como espelho,
que reflete espelho(onde só o espelho é observador e observado),
infinindo-me com as águas, fluando...organizado pelas águas...
...organizante de águas...

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Habeas Corpus - Mosy

video

Não me queimas, não me tires o ar.
Habeas corpus de mim.
Ah, este verde que vive, não verga, não deve
Não duvida. Só este homem ai não decifra a vida
Preciso de um verdemônio verdejante cavaleiro
Na floresta leve e na neve e até no frio
De dentro do rio, nas águas calmas
Tantos peixes... peixes...peixes
Lá fora feixe ao vento do veneno me defenda
Com duendes, lanças e crianças aqui presentes
Na floresta verde, ah
Um amor bem fecundo
E meu mundo gritar, quatro folhas e trevo
Me atrevo a cantar...


O Catador
.
Um homem catava pregos no chão.
Sempre os encontrava deitados de comprido,
ou de lado,
ou de joelhos no chão.
Nunca de ponta.
Assim eles não furam mais - o homem pensava.
Eles não exercem mais a função de pregar.
São patrimônios inúteis da humanidade.
Ganharam o privilégio do abandono.
O homem passava o dia inteiro nessa função de catar
pregos enferrujados.
Acho que essa tarefa lhe dava algum estado.
Estado de pessoas que se enfeitam a trapos.
Catar coisas inúteis garante a soberania do Ser.
Garante a soberania de Ser mais do que Ter.

(Manoel de Barros)

"Na minha memória

tão congestionada

e no meu coração

tão cheio de marcas e poços

você ocupa um dos lugares mais bonitos".(Caio Fernando Abreu)

Ora Até que Enfim


Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão
de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer
o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Os Loucos


Há vários Tipos de louco.
O hitleriano, barafusta que.
O solícito, Que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.

O idiota Que se baba,
Pelo explicado psiquiatra gago.
O legatário de Outros,
O Que nsa governa.
O depressivo Que salva
O Mundo. Aqueles destroem o que.

E HÁ UM semper
(O Mais intratável) que Não desiste
e escreve versos.

Não gosto Destes loucos.
(Torturados Pela Escuridão Pela morte,?)
Gosto Desta velha senhora
Que ri, manso, Pela rua, de Felicidade.



António Osório, in 'A Morte da Ignorância "

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Menino verde veludo primário


Menino verde veludo primário,
postador de arsenais,
sempre surpresas esperadas
ó insaciável organizante de águas,

aquele que provém da terra,
sem ela não é, nem está,
anda acima, nas nuvens de céus estrelados constelantes,
pairando ao vento, leve pesante.

Propicia um batucar ritmíco inconfundível,
por onde passa as flores o olham,
esperando serem es-colhidas,
e depois entregues, á fadas voantes
saltadoras serelepes, andante sobre letras.

Existe uma cor, um gênero, uma textura, e uma ordem.
Tantos jeitos de se apelidar um ser,
sem saber que o verdadeiro tipo
é um só, e o mesmo,
para sempre, ou não.
“(...)eu proponho uma campanha de saúde pública:
vamos ser mais bem humorados, mais desarmados.
Podemos ser cidadãos sérios e respeitáveis e, ao mesmo
tempo, leves. Basta agir com delicadeza, soltura, autenticidade,
sem obediência cega às convenções, aos padrões, aos patrões,
um pouco mais de jogo de cintura, de criatividade, de respeito
às escolhas alheias. Vamos deixar para sofrer pelo que é realmente
trágico, e não por aquilo que é apenas incômodo, senão fica
impraticável atravessar os dias”

(Martha Medeiros)
...nunca tive cama, sou assim,
do chão...coisa da terra...quando
deito em pedra de cachoeira, viro
árvore que se agarra em pedra...e
assim fico, ouvindo música de água,
em estado de árvore...
 Imagem: Hyeronimus Bosch(O barco dos tolos)
"Rei: Vejamos Hamlet: onde está Polônio?
Hamlet: Numa ceia.
Rei: Numa ceia? Onde?
Hamlet: Não onde come, mas onde é comido. Certa assembléia de vermes políticos está com ele agora: o verme é o único imperador da dieta, engordamos todas as demais criaturas para que nos engordem, e nós nos engordamos para as larvas. O rei gordo e o mendigo magro são apenas iguarias diferentes, dois pratos diversos, mas destinados a uma só mesa: este é o final.
Rei: Que lástima! Que lástima!
Hamlet: É possível que alguém pesque com o verme que comeu um rei, e depois coma o peixe que se alimentou com o verme.
Rei: Que queres dizer com isso?
Hamlet: Nada, apenas mostrar-vos como um rei pode viajar pelas entranhas de um mendigo."

(William Shakespeare)

Vincent Van Gogh(Dr. Gachet)


Vi um verme fosforescente
que, paciente, roía meu crânio.
"Passas fome"? disse-lhe eu,
que de idéias ando parco.
A lamber os beiços, respondeu:
"Sou um verme taoísta;
alimento-me do vazio."(Eduardo Alves da Costa)
– Não sei o que você quer dizer com "glória" – Alice disse.
Humpty Dumpty sorriu com desdém.
– É óbvio que não sabe... até que eu lhe diga. Eu quis dizer: “Há um belo argumento infalível para você!”
– Mas “glória” não significa “um belo argumento infalível” – Alice objetou.
– Quando eu uso uma palavra, – Humpty Dumpty disse com certo desprezo – ela significa o que eu quiser que ela signifique... Nem mais nem menos.
– A questão é – disse Alice – se você pode fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes.
– A questão é – disse Humpty Dumpty – quem será o chefe... E eis tudo.
Alice ficou pasmada demais para dizer qualquer coisa; assim depois de um minuto Humpty Dumpty começou de novo:
– São geniosas algumas delas... Principalmente verbos, são os mais orgulhosos... Com os adjetivos você pode fazer de tudo, mas não com os verbos... No entanto eu posso lidar com todos eles! Impenetrabilidade! É o que eu digo!
– Pode me dizer, por favor – disse Alice – o que isso significa?
– Agora você fala como uma criança razoável – disse Humpty Dumpty, parecendo mais contente. – Eu quis dizer com “impenetrabilidade” que já falamos demais desse assunto e que seria bom que você mencionasse o que pretende fazer em seguida, pois suponho que não pretenda ficar parada aqui pelo resto de sua vida.
– É muita coisa para uma palavra significar – Alice disse pensativa.
– Quando faço uma palavra trabalhar tanto, – disse Humpty Dumpty – sempre lhe pago hora extra.
– Oh! – disse Alice. Estava perplexa demais para fazer qualquer comentário.
– Ah, você precisava vê-las em roda de mim numa noite de sábado – continuou Humpty Dumpty – balançando gravemente a cabeça de um lado para o outro – para receber seus salários, sabe?(Alice não se aventurou a perguntar com o que ele lhes pagava; então vejam que não posso dizer a vocês.)
– Você parece muito esperto em explicar palavras, senhor – disse Alice. – Poderia por gentileza me dizer o significado do poema intitulado “Tagarelisco”?
– Vamos ouvi-lo – disse Humpty Dumpty. – Posso explicar todos os poemas que já foram inventados – e um bom número dos que ainda não foram inventados.
Isso pareceu promissor, de modo que Alice recitou a primeira estrofe:
– Era grelhúsculo, e os mangartos
flexiscosos giroscopiavam
e no lafrás verrumaravam:
e muito fristes pareciam
os estornões, e malincondes
os caititurfas arfolavam.
– É o bastante para começar, – Humpty Dumpty interrompeu – há uma porção de palavras difíceis aí. “Grelhúsculo” significa quatro horas da tarde – a hora em que você começa a grelhar coisas para o jantar.
– Parece servir – disse Alice. – E “flexiscosos”?
– Bem, “flexiscosos” significa “flexíveis e viscosos”. “Flexíveis” é o mesmo que “ágeis”. Veja que é como um portmanteau – há dois sentidos encaixados numa única palavra.
– Agora percebo – Alice observou pensativa. – E o que são “mangartos”?
– Bem, “mangartos” são coisas como texugos... São coisas como lagartos... E são coisas como saca-rolhas.
– Devem ser criaturas de aparência muito curiosa.
– Se são – disse Humpty Dumpty. – Também fazem seus ninhos sob relógios de sol... E também vivem em queijos.
– E o que é “giroscopiar” e “verrumarar”?
– “Giroscopiar” é fazer giros como um giroscópio. “Verrumarar” é fazer buracos como uma verruma.
– E o “lafrás” é o gramado ao redor de um relógio de sol, suponho? – disse Alice, surpresa com sua própria ingenuidade.
– Com certeza. É chamado de “lafrás”, você sabe, porque se estende muito à frente e muito atrás dele...”
– E muito para os lados também – Alice acrescentou.
– Exatamente. Bem então, “fristes” é “frágeis e tristes” (eis outro portmanteau para você.) E um “estornão” é um pássaro magro, de aparência esmolambada, com as penas arrepiadas ao redor – algo como um espanador vivo.
– E os “caititurfas”? – perguntou Alice. – Receio estar dando muito trabalho a você.
– Bem, um “caititurfa” é uma espécie de porco verde: mas de “malincondes” não estou certo. Creio que seja uma junção de “melancólicos e perdidos” – significando que estejam longe de casa, suponho.
– E o que significa “arfolavam”?
– Bem, “arfolar” é alguma coisa entre arfar e resfolegar, com um tipo de espirro no meio: porém, você o ouvirá... E quando o tiver ouvido ficará muito contente. Quem andou recitando todas essas coisas difíceis para você?
– Li num livro – disse Alice. – Mas alguém me recitou outras poesias mais fáceis do que essa... Tweedledee, acho que foi.
– Quanto a poesia, você sabe, – Humpty Dumpty disse, levantando uma de suas grandes mãos – eu posso recitar poesia tão bem quanto qualquer pessoa, se for o caso...


Lewis Carroll(Charles Lutwidge Dogson), in "Through the looking-glass and what Alice found there."
Eu hoje acordei com saudade.
E, assim como quem procura,
na gaveta da ventura,
entre mil e um guardados...
...achei o teu rosto amado,
no agora, amanhã, no passado,
dos sonhos, o mais sonhado,
minha mais doce ilusão.
E sem temer tempo ou idade,
envolta em doce loucura,
me dei a ti com ternura,
me dei a ti sem cuidados,
num ato, tão encantado,
que o Tempo, de emocionado,
deixou o mundo parado...
...e dormiu na minha mão!(Patrícia Neme)

Não é Preciso


Não é preciso que a realidade exista
para acreditarmos nela. Na verdade,
se não existir tudo é mais luminoso.
Mundo, evidência submissa e soberana.

Pedro Mexia, in "Duplo Império"

Metodologia

Convoco os duendes da inquietação
e da alegria, urdindo um laborioso
rito circular, delicada teia iridiscente
de que, relutante, a luz se vá
pouco a pouco enamorando.

Palavras não as profiro
sem que antes as tenha encantado
de vagarosa ternura; mal esboçados,
gestos ou afagos, apenas me afloram
a hesitante extremidade dos dedos

que, aquáticos e transidos, estacam
no limiar surpreso do seu rosto.
Movimentos longos da tarde
e sussurros graves da noite
que tendessem para a imobilidade

e o silêncio, não seriam mais cautos
e aéreos. Quietas estátuas de cristal,
intensamente nos fitamos, enquanto
trémula, lenta e comburente,
a luz mais pura nos atravessa.

Rui Knopfli, in "O Corpo de Atena"
"O erro está nos meios, bem mais do que nos princípios."


Napoleão Bonaparte


"Suavisando meus gestos,

Pude dar passos maiores.
Fechando meus olhos e meu coração abrandando,
Percebi maior beleza
Deixando de buscar explicações
E buscando conhecimento,
Pude viver uma paz,
Dentro de mim ecoam várias vozes,
Direcionando-me em caminhos confusos,
Nem sempre Clamo por discerni-las
Quero todas as Possibilidades
Gosto de ver entrelaçando-se razão e emoção
Não existe pecado ou submissão
Existem letras e filhos
Existem diversos caminhos
Claras Noites de Lua Cheia
e beleza com igual, dias de chuva
Ecoam em mim vozes intermitentes
Que não me mostram caminhos,
mas ensinam-me a alcança-los. "

Fabiana Viana

Habeas Corpus - Mosy

... Preciso de um verdemônio verdejante cavaleiro ...

Acesse:http://www.youtube.com/watch?v=eZUHUwOqPIg

Sobre observânças de fadas


...quando falo que és fada, é que vejo
tuas asas...bem "frageiszinhas", qual de
borboletas...e voas como elas, dançando
com o ar...quero(e como), mas não preciso
tentar pega-la, tu vens e pousa em mim(e esse
pousar é inebriante, sem realidade para comparar),
e és tão leve...quero-te abraçar, mas tenho medo de machucar
tuas asas...tão lindas...deixo-te livre, mesmo querendo
proteger, porque tens asas e como tal tens que voar...mas
não consigo tirar o olho, me aparenta sonho...fadinha minha...cavaleira errante...

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O que não sei fazer desmancho em frases.

Eu fiz o nada aparecer.

(Represente que o homem é um poço escuro.
Aqui de cima não se vê nada.
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver o nada.)

Perder o nada é um empobrecimento.(Manoel de Barros)

Arquivados os sentimentos.

Em ordem, por épocas!

Alfabeticamente eu guardo

em profundos compartimentos.(Bia Martins)

...e tudo que era efêmero se desfez.

E ficaste só tu, que é eterno.(Cecília Meirelles)

Peter Paul Rubens(Neptune Calming The Tempest, 1635)

...desconjuntadas as junturas dos costados, todos recebem a onda inimiga e os navios se entreabrem por todas as partes.
Entretanto Netuno sentiu que o mar se agitava com grande ruído e que a tempestade se desencadeara e que os abismos tinham sido revolvidos nas suas profundezas; gravemente irritado, ergue sua fronte calma à flor das ondas e, olhando para a frente sobre a vasta extensão, vê a frota de Enéias dispersa pelo mar e os troianos oprimidos pelas ondas e pelo céu que parece cair sobre eles. Os artifícios e os furores de Juno não passam despercebidos ao irmão. Chama o Euro e o Zéfiro e lhes fala nestes termos: "Será que foi vossa prosápia que vos deu tal audácia? Ousaste, sem minha permissão, ventos insolentes, turbar o céu e a terra e soerguer estas massas? Eu vos deveria... Mas antes de tudo cumpre acalmar as ondas revoltas. A seguir me pagareis por essas faltas com castigo inédito. Fugi, depressa, e dizei a vosso rei que o domínio do mar e o temível tridente couberam em sorte não a ele mas a mim. Senhor dos enormes rochedos, vossa habitação, ó Euro, que Éolo se gabe daqueles palácios, e reine na prisão onde os ventos estão cativos".
Assim diz e, mais depressa do que o dito, acalma os mares encapelados, põe em fuga as nuvens acumuladas e faz o sol brilhar. Cimóteo e Tritão, unindo seus esforços, desencalham os navios do agudo escolho; Netuno os levanta com o tridente e abre as vastas sirtes e aquieta o mar e desliza à flor das ondas com suas rodas velozes. E, como sucede comumente, quando rebenta uma sedição no seio de um grande povo, a ignóbil populaça, presa de cólera, faz voar fachos incendiários e pedras, e o furor arma os braços; logo se cala e se conserva de ouvidos fitos, à escuta, no momento em que surge algum varão respeitável pela piedade e pelos serviços, o qual lhe governa o espírito com seus ditos e amansa seu coração. Assim caiu todo o fragor do mar logo que o pai Netuno, lançando os olhos pela planície líquida e levando sob o céu sereno, guia os cavalos e abandona as rédeas ao carro que voa sobre as ondas.


Virgílio, in "Aeneis"(titulo original), "Eneida"

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Fui Sabendo de Mim


Fui sabendo de mim
por aquilo que perdia

pedaços que saíram de mim
com o mistério de serem poucos
e valerem só quando os perdia

fui ficando
por umbrais
aquém do passo
que nunca ousei

eu vi
a árvore morta
e soube que mentia

Mia Couto, in "Raiz de Orvalho e Outros Poemas"