Significado de Devaneio: 1. Estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens; 2. Quimeras, fantasias, ficções.
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terça-feira, 11 de janeiro de 2011

O que os Olhos Vêem (Eyes do more than see)

Depois de centenas de bilhões de anos, ele de súbito pensou em si mesmo como Ames. Não a combinação de comprimentos de ondas que era agora, através de todo o Universo, o equivalente de Ames, mas o som, o som daquele nome. Ele experimentou o ressurgir de uma memória muito tênue – a memória daquelas vibrações sonoras que ele já não captava e que nunca mais poderia captar.
Aquele novo projeto estava tornando sua memória mais sensível a tantas coisas antigas, coisas remotas, de muitos éons atrás. Ele comprimiu o vórtice de energia que constituía sua individualidade e suas linhas de força tornaram-se mais intensas, para além das estrelas.
Daí a pouco, captou o sinal de Brock, em resposta.
Claro que podia contar aquilo a Brock, pensou Ames. Claro que poderia contar a alguém.
O cambiante padrão energético de Brock alinhou-se ao seu.
-Não vem conosco, Ames?
-Claro.
-Vai tomar parte no cuncurso?
-Sim! – As linhas de força de Ames pulsaram de modo errático. – Com certeza. Estive pensando numa nova forma de arte. Algo... fora do comum.
-Um desperdício de esforço. Você acha que se pode pensar numa nova variação, depois de duzentos bilhões de anos? Não pode haver nada novo.
Por um instante Brock mudou de fase e saiu de alinhamento, de modo que Ames teve que ajustar às pressas suas linhas de força. Ele captou o perpassar de outros pensamentos enquanto o fazia – a visão da poeira nebulosa das galáxias de encontro ao veludo negro do Nada e as linhas de força que pulsavam em infinitas formas de vida energética, no espaço entre as galáxias.
Ames disse:
-Por favor, Brock, absorva meus pensamentos. Não se isole. Estou pensando em... em manipular Matéria. Imagine! Uma sinfonia de Matéria. Por que se preocupar com a Energia? Claro que não há nada de novo na Energia. Como poderia haver? E isso não significa que devemos nos voltar para a Matéria?
-Matéria!...
Ames interpretou as vibrações energéticas de Brock como de repulsa. Respondeu:
-Por que não? Já fomos Matéria certa vez, há... há... oh, não sei, talvez um trilhão de anos! Por que não construir objetos com alguma substância material, ou formas abstratas, ou... ouça bem, Brock... por que não construir uma réplica de nós mesmos feita de Matéria, do jeito que fomos um dia?
-Não me lembro disso – respondeu Brock. – Ninguém se lembra.
-Eu lembro – tornou Ames, com energia. – Tenho pensado nisso o tempo inteiro e estou começando a lembrar. Brock, deixe-me mostrar-lhe. Diga-me se estou certo ou não. Por favor.
-Não isto é uma bobagem. É... repugnante.
-Deixe-me tentar, Brock. Nós somos amigos. Temos pulsado juntos nossas energias desde o início, desde o momento em que nos tornamos o que somos agora. Brock, por favor!
-Está bem. Mas rápido.
Ames não tinha experimentado um tal tremor em suas linhas de força desde... desde quanto tempo? Se ele tentasse agora diante de Brock e tudo desse certo, ele teria coragem para manipular a Matéria diante de uma platéia de Seres-energia que esperavam há éons pelo surgimento de alguma novidade.
A Matéria era extremamente rarefeita naquele espaço entre as galáxias, mas Ames a reuniu pacientemente, recolhendo cada fragmento esparso entre tantos anos-luz cúbicos, escolhendo átomos, moldando aquilo até dar-lhe uma consistência quase de argila e compor uma forma ovóide, ligeiramente mais larga na parte de baixo.
-Não se lembra, Brock? –perguntou ele com suavidade. –Não era algo parecido com isto?
O vórtice de Brock estremeceu em fase.
-Não me faça lembrar! Eu não lembro!
-Isto era a cabeça. Chamavam assim... cabeça. Eu me lembro tão bem, tão bem... tenho vontade de dizê-lo. De dizê-lo em sons. –Ele esperou um pouco, depois falou: -Veja. Lembra-se disso?
Na parte superior do ovóide apareceu: CABEÇA.
-O que é? –perguntou Brock.
-A palavra que indica cabeça. Os símbolos que correspondem aos sons. Não me diga que não lembra, Brock.
-Havia algo... –disse Brock, hesitante. –Algo no meio... –Uma saliência vertical começou a se formar.
Ames exclamou:
-Isso, Nariz, é como se chamava! –Sobre a saliência apareceu NARIZ. –E isto dos dois lados são olhos. –Apareceram OLHO ESQUERDO – OLHO DIREITO.
Ames considerou com atenção o que tinha acabado de formar e suas linhas de força pulsaram pausadamente. Aquilo lhe agradava, de fato?
-Boca – disse ele, sendo percorrido por leves estremecimentos. –E queixo, e pomo-de-adão, e clavículas. É incrível... como essas palavras retornam. – As palavras apareceram sobre a forma.
Brock disse:
-Eu não penso nisso há centenas de bilhões de anos. Por que você tinha que me lembrar? Por quê?
Ames estava imerso em seus pensamentos.
-Existe algo mais... – disse. –Órgão para escutar. Alguma coisa que captava as ondas sonoras... Ouvidos! Mas, onde é que ficavam? Não consigo lembrar, não sei onde colocá-los...
Brock gritou de súbito:
-Deixe isso! Ouvidos, ou o quer que seja! Não lembre!
Ames perguntou, hesitante:
-Mas... o que há de mal em lembrar?
-Por que a superfície não era assim, áspera e fria, do jeito que está aí! Era macia e quente! Porque os olhos eram vivos e cheios de ternura, e os lábios da boca estavam trêmulos, e eram muito suaves... de encontro aos meus. – As linhas de força de Brock estavam vibrando e sacudindo-se de um lado para outro.
-Sinto muito! – disse Ames. –Sinto muito.
-Você me fez lembrar que um dia fui uma mulher e conheci o amor, que os olhos não servem apenas para ver e que eu não tenho mais olhos para fazer... o que eu queria fazer agora. –Num impulso repentino, ele agregou mais matéria aos olhos daquela forma tosca de cabeça e disse: -Eles podem fazer isto agora. –Modou de direção e partiu.
Ames olhou aqui e lembrou que ele, um dia, tinha sido homem. A força do seu vórtice fendeu em duas metades aquela cabeça e ele partiu por entre as galáxias seguindo o rastro energético deixado por Brock, rumo à fatalidade sem fim das formas vivas.
Os olhos da cabeça despedaçada da Matéria ainda brilhavam com a umidade ali depositada por Brock em forma de lágrimas. A cabeça da Matéria fez o que os Seres-energia não podiam mais fazer e chorou por toda a humanidade e pela frágil beleza dos corpos que eles tinham descartado um dia, um trilhão de anos atrás.
(Isaac Asimov)

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

O bardo imortal


- Oh, sim - disse o Dr. Phineas Welch - posso trazer de volta o espírito dos mortos ilustres.
Estava um pouco ébrio, ou talvez não o dissesse. Era naturalmente aceitável embriagar-se um pouco na festa anual do Natal. Scott Robertson, o jovem instrutor de inglês da escola, ajustou os óculos no nariz e olhou à direita e esquerda para ver se tinham sido ouvidos por outras pessoas.
- Francamente, Dr. Welch.
- Falo sério. E não apenas os espíritos. Trago também os corpos de volta.
- Eu não diria que fosse possível - retorquiu Robertson, empertigado.
- E por que não? É uma simples questão de transferência temporal.
- Refere-se à viagem no tempo? Mas isso é... bem, é bem invulgar.
- Não é, se você souber como.
- Bem, como, Dr. Welch?
- Acha que vou lhe contar? - perguntou o físico em tom grave.Olhou vagamente ao redor procurando outra bebida e não encontrou bebida alguma. Disse, então:
- Eu já trouxe um bom número de volta. Arquimedes, Newton, Galileu. Pobres sujeitos.
- Eles gostaram daqui? Seria de crer que ficassem encantados com a nossa ciência moderna - disse Robertson, a quem a conversa começara a agradar.
- Oh, ficaram. Principalmente o Arquimedes. Pensei que ele ia enlouquecer de alegria, de inicio, depois de lhe ter explicado um pouco da coisa em algum grego que eu havia escovado, mas não...não...
- O que houve?
- Uma questão de cultura diferente. Eles não se acostumaram, ao nosso modo de viver. Ficaram muitíssimo solitários e assustados. Tive de mandá-los de volta.
- Uma pena.
- Pois é. Grandes espíritos, mas não tinham mentes flexíveis.Não eram universais. Por isso tentei Shakespeare.
- O quê? - berrou Robertson. Aquilo estava chegando mais perto, agora.
- Não grite, rapaz - disse Welch. - É falta de educação.
- O senhor disse que trouxe Shakespeare de volta?
- Trouxe, sim. Precisava de alguém com espírito universal, alguém que conhecesse as pessoas o bastante para poder viver com elas a séculos de distância de sua própria época. Shakespeare era esse homem. E apanhei a assinatura dele. Como lembrança, sabe?
- Está com ela? - indagou Robertson, os olhos a se esbugalharem.
- Bem aqui - e Welch vasculhava um bolso do capote, logo outro.
- Ah, aqui está.
Um pequeno pedaço de cartolina foi passado ao instrutor. A um lado achava-se escrito: "L. Klein & Sons, Ferragens por Atacado". No outro lado, em escrita garatujada, via-se "William Shakespeare".Uma desconfiança tresloucada apoderou-se de Robertson.
- Qual era o aspecto dele?
- Diferente das imagens que se apresentam por aí. Calvo e com bigode muito feio. Falava em sotaque forte. Está claro que fiz o possível para agradá-lo com nossa época. Contei-lhe que tínhamos a melhor das opiniões sobre suas peças e ainda as representávamos. Na verdade disse que em minha opinião eram as maiores obras da literatura na língua inglesa, talvez em qualquer idioma.
- Ótimo. Ótimo - concordou Robertson, quase incapaz de respirar.
- Eu disse que as pessoas haviam escrito livros e mais livros de comentários sobre as peças dele.
Ele quis ver um desses livros, naturalmente, e fui apanhá-lo na biblioteca.
- E depois?
- Oh, ele ficou encantado. Está claro que encontrou dificuldades com as expressões atuais e as referências a acontecimentos a partir de 1600, mas eu o ajudei. Pobre camarada. Não creio que tenha contado com tal tratamento. Não parava de dizer: "Que Deus tenha misericórdia! O que não arrancam das palavras em cinco séculos? Dá para arrancar, acredito, uma torrente de um pano molhado".
- Ele não diria uma coisa dessas.
- E por que não? Escreveu as peças tão depressa quanto pôde. Disse que tinha de fazê-lo, por causa dos prazos de entrega. Escreveu Hamlet em menos de seis meses. A trama era antiga, ele apenas lhe deu polimento.
- É tudo que fazem com o espelho de telescópio. Basta dar polimento - disse o instrutor de inglês, cheio de indignação. O físico não lhe deu atenção. Descobriu um copo cheio e intacto no bar, a alguns palmos de distância, e deslizou em sua direção.
- Eu disse ao bardo imortal que até dávamos cursos superiores sobre Shakespeare.
- Eu dou um,...
- Sei disso. Matriculei-o em seu curso noturno de extensão. Nunca vi homem tão aflito quanto o pobre Bill, por descobrir o que a posteridade pensava a seu respeito. Ele estudou como o diabo.
- O senhor matriculou William Shakespeare em meu curso? - murmurou Robertson.
Mesmo com fantasia alcoólica tal pensamento lhe causava estarrecimento. E era mesmo uma fantasia alcoólica? Começava a lembrar-se de um homem calvo, com o modo curioso de falar...
- Não sob o nome dele, está claro - explicou o Dr. Welch.
- Não importa o que ele passou. Foi um erro, só isso. Um grande erro. Pobre camarada.
Estava em posse do coquetel e sacudiu a cabeça para o copo.
- Por que foi um erro? O que lhe aconteceu?
- Tive de mandá-lo de volta a 1600 - trovejou Welch, agora indignado, por sua vez. - Até que ponto você acha que um homem agüenta a humilhação?
- E de que humilhação está falando? O Dr. Welch virou a bebida do copo.
- Ora, seu pobre imbecil, você o reprovou.