Significado de Devaneio: 1. Estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens; 2. Quimeras, fantasias, ficções.
Mostrando postagens com marcador Imagem - Jacek Yerka. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Imagem - Jacek Yerka. Mostrar todas as postagens

domingo, 29 de agosto de 2010

O Guardador de Águas

Imagem - Jacek Yerka(Sad)
I

O aparelho de ser inútil estava jogado no chão, quase
coberto de limos -
Entram coaxos por ele dentro.
Crescem jacintos sobre palavras.
(O rio funciona atrás de um jacinto.)
Correm águas agradecidas sobre latas...
O som do novilúnio sobre as latas será plano.
E o cheiro azul do escaravelho, tátil.
De pulo em pulo um ente abeira as pedras.
Tem um cago de ave no chapéu.
Seria um idiota de estrada?
Urubus se ajoelham pra ele.
Luar tem gula de seus trapos.(Manoel de Barros)

sexta-feira, 14 de maio de 2010


Imagem: Jacek Yerka
... outrora escutei Os Anjos
poemas como sonatas, os,
como patéticas confissões.
Nunca escutei Voz de gente.
Outrora viajei
IMAGINARIOS mundos,
fáceis de habitar.

Carlos Drummond de Andrade

quarta-feira, 31 de março de 2010

Jacek Yerka

Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem
que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas,
e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar,
para poder vê-las assim.
(Cecília Meireles)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Jacek Yerka

...deixa eu te dizer antes que o ônibus parta que você
cresceu em mim dum jeito completamente insuspeitado,
assim como se você fosse apenas uma semente e eu plantasse
você esperando ver nascer uma plantinha qualquer, pequena,
rala, uma avenca, talvez samambaia, no máximo uma roseira, é,
não estou sendo agressivo não, esperava de você apenas
coisas assim, avenca, samambaia, roseira, mas nunca,
em nenhum momento essa coisa enorme que me obrigou
a abrir todas as janelas, e depois as portas, e pouco a
pouco derrubar todas as paredes e arrancar o telhado
para que você crescesse livremente, você não
cresceria se eu a mantivesse presa
num pequeno vaso.(Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010


Imagem: Jacek Yerka (Swimming Lesson)
Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na primavera do que sonhei de mim.
Também na esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.

Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.

Caí pela escada abaixo sùbitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo
com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor
de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me aguente comigo e com os comigos de mim.(Fernando Pessoa)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Vida Anterior


Imagem: Jacek Yerka
Longos anos vivi sob um pórtico alto
De gigantes pilares, nobres, dominadores,
Que a luz, vinda do mar, esmaltava de cores,
Tornando-o semelhante às grutas de basalto.

Chegavam até mim os ecos da harmonia
Do orfeão colossal das ondas chamejantes,
Ligando a sua voz às tintas deslumbrantes
Da luz crepuscular que em meus olhos fugia.

Em meio do esplendor do céu, do mar, dos lumes,
Foi-me dado gozar, voluptuosas calmas!
Escravos seminus, rescendendo perfumes,

Minha fronte febril refrescavam com palmas,
E tinham por missão apenas descobrir
A misteriosa dor que eu andava a carpir

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Apocalipse

Imagem: Jacek Yerka
Quando passa o tempo, as coisas
retornam aos elementos.
E as criaturas.
Para a transformação final.
Mas nem o fim permanece.
O cardume dos lagos que morre embranquecido
por fim é de água.
Os boquilobos multicolores na beira das áleas
caem na terra e são terra.

Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Ecos"

O Nada. Sobretudo na Fase de Exaltação

Imagem: Jacek Yerka
Os ramos de árvores despidos que nos lembram
o nada. Sobretudo na fase de exaltação
do espírito. Com a cabeça encostada
aos vidros altos.

Simultaneamente procurar o centro
da irradiação. O Sol matinal com os seus hiatos
preenchidos por casas. Ameias onde se
invertem os vértices do horizonte.
Sol magnânimo

fixo sobre as árvores abençoadas sem folhas.
Infinitos pormenores visíveis e
espaços audíveis preenchem a hora exaltada.
Ponto profusamente cheio.
Um fino silêncio exterior

sinal do nada circundante.
Graveto junto de graveto cruzados
para além do fim da perspectiva.
Um significado diverso
naquelas ameias em outros planos.
O nada sempre coeso.
Uma respiração intangível
e sem sombras.

Fiama Hasse Pais Brandão, in "Nova Natureza"

Metafísica da Malva

Imagem: Jacek Yerka
Imaginava que as arestas das grandes folhas
esmaeciam e que a malva odorífera
era o coração verde mais vivo
entre as plantas daqueles campos.
Campos que em si
esmaeciam também na luz jacente celeste
espalhada pelo chão sem fim.
Céu inteiro no mundo sem diferença.
Folhagem a ser imaginada somente,
depois de a ver e apalpar o poeta,
guardada no coração para a rever.

Fiama Hasse Pais Brandão, in "Três Rostos - Arómatas"