Quando tornar a vir a primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de julgar
Que a primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera seu único amigo.
Mas a primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam,
Ou as folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete,
Porque tudo é real. (Alberto Caeiro)
Significado de Devaneio: 1. Estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens; 2. Quimeras, fantasias, ficções.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011
segunda-feira, 7 de março de 2011
Que somos todos diferentes, é um axioma da nossa naturalidade.
Só nos parecemos de longe, na proporção em que não somos nós.
A vida é, por isso, para os indefinidos; só podem conviver os que
nunca definem, e são, um e outro, ninguém.
Cada um de nós é dois - o homem que sonha em cada homem
que age. Toda a aproximação é um conflito. O outro é sempre
o obstáculo para quem procura. Só quem não procura é feliz,
porque só quem não busca, encontra, visto que quem não
procura já tem, e já ter, seja o que for, é ser feliz.
Fernando Pessoa
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
"Some wind for old windmil"
Imagem: Ceslovas Cesnakevicius
Acho tão natural que não se pense
Que me ponho a rir às vezes, sozinho,
Não sei bem de quê, mas é de qualquer coisa
Que tem que ver com haver gente que pensa ...
Que pensará o meu muro da minha sombra?
Pergunto-me às vezes isto até dar por mim
A perguntar-me coisas. . .
E então desagrado-me, e incomodo-me
Como se desse por mim com um pé dormente. . .
Que pensará isto de aquilo?
Nada pensa nada.
Terá a terra consciência das pedras e plantas que tem?
Se ela a tiver, que a tenha...
Que me importa isso a mim?
Se eu pensasse nessas coisas,
Deixaria de ver as árvores e as plantas
E deixava de ver a Terra,
Para ver só os meus pensamentos ...
Entristecia e ficava às escuras.
E assim, sem pensar tenho a Terra e o Céu.
Alberto Caeiro, Heterônimo de Fernando Pessoa
Para compreender, destruí-me.
"Calling for fog"
Imagem: Ceslovas Cesnakevicius
Para compreender, destruí-me. Compreender é esquecer de amar. Nada conheço mais ao mesmo tempo falso e significativo que aquele dito de Leonardo da Vinci, de que se não pode amar ou odiar uma coisa senão depois de compreendê-la. A solidão desola-me; a companhia oprime-me. A presença de outra pessoa descaminha-me os pensamentos; sonho a sua presença com uma distração especial, que toda a minha atenção analítica não consegue definir.
Fernando Pessoa, in Livro do Desassossego
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
O Amor pede Identidade com Diferença
O amor pede identidade com diferença, o que é impossível já na lógica, quanto mais no mundo. O amor quer possuir, quer tornar seu o que tem de ficar fora para ele saber que se torna seu e não é. Amar é entregar-se. Quanto maior a entrega, maior o amor. Mas a entrega total entrega também a consciência do outro. O amor maior é por isso a morte, ou o esquecimento, ou a renúncia - os amores todos que são os absurdiandos do amor.
(...) O amor quer a posse, mas não sabe o que é a posse. Se eu não sou meu, como serei teu, ou tu minha? Se não possuo o meu próprio ser, como possuirei um ser alheio? Se sou já diferente daquele de quem sou idêntico, como serei idêntico daquele de quem sou diferente? O amor é um misticismo que quer praticar-se, uma impossibilidade que só é sonhada como devendo ser realizada.
Fernando Pessoa, in 'O Rio da Posse'
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Nunca pretendi ser senão um sonhador.
Pertenci sempre ao que não está onde estou e ao que nunca pude ser...
À vida nunca pedi senão que passasse por mim
sem que eu a sentisse.
Do amor apenas exigi que nunca deixasse
de ser um sonho longínquo...
A minha mania de criar um mundo falso acompanha-me ainda...
e alinho na minha imaginação, confortavelmente,
figuras que habitam na minha vida interior, constantes e vivas.
Tenho um mundo de amigos dentro de mim,
com vidas próprias, definidas e imperfeitas.
FERNANDO PESSOA
sábado, 21 de agosto de 2010
Sentir
Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente, porque todas as coisas são,
em verdade, excessivas e toda a realidade é um excesso,
uma violência, uma alucinação extraordinariamente nítida
que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
o centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.
(Álvaro de Campos - Heterônimo)
segunda-feira, 28 de junho de 2010
O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
Alberto Caeiro (Heterônimo)
terça-feira, 8 de junho de 2010
busquemos ao menos extrair beleza de não poder extrair
beleza da vida. Façamos de nossa falência uma vitória,
uma coisa positiva e erguida, com colunas, majestade e
aquiescência espiritual. Se a vida não nos deu mais do que
uma cela de reclusão, façamos por ornamentá-la, ainda que
mais não seja, com a sombra de nossos sonhos, desenho
se cores mistas esculpindo o nosso esquecimento sobre a
exterioridade parada dos muros.(Fernando Pessoa)
quarta-feira, 19 de maio de 2010
que se chama erudição, e há uma erudição do entendimento,
que é o que se chama cultura. Mas há uma erudição da
sensibilidade; que nada tem a ver com a experiência de vida.
A experiência da vida nada ensina, como a história nada informa.
A verdadeira experiência consiste em restringir o contato
com a realidade e aumentar a análise desse contato. Assim a
sensibilidade se alarga e aprofunda, porque em nós está
tudo; basta que o procuremos e saibamos procurar.
(Fernando Pessoa)
terça-feira, 11 de maio de 2010
Rafal Olbinski
Parecem ter medo da polícia...
Mas tão boas que florescem do mesmo modo
E têm o mesmo sorriso antigo
Que tiveram para o primeiro olhar do primeiro homem
Que as viu aparecidas e lhes tocou levemente
Para ver se elas falavam...(Alberto Caeiro)
quinta-feira, 29 de abril de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Depois fugiu para o sol
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.(Alberto Caeiro)
E desceu no primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
É uma criança bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao braço direito,
Chapinha nas poças de água,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos cães.
E, porque sabe que elas não gostam
E porque toda a gente acha graça,
Corre atrás das raparigas
Que vão em ranchos pelas estradas
Com as bilhas às cabeças
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.(Alberto Caeiro)
segunda-feira, 12 de abril de 2010
terça-feira, 6 de abril de 2010
As forças todas do universo,
Em cuja reflexão emotiva e sacudida
Minuto a minuto, emoção a emoção,
Coisas antagônicas e absurdas se sucedem —
Eu o foco inútil de todas as realidades,
Eu o fantasma nascido de todas as sensações,
Eu o abstrato, eu o projetado no écran,
Eu a mulher legítima e triste do Conjunto
Eu sofro ser eu através disto tudo
como ter sede sem ser de água.(Álvaro de Campos)
sexta-feira, 26 de março de 2010
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