Significado de Devaneio: 1. Estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens; 2. Quimeras, fantasias, ficções.
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quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Embriaguez


"É preciso estar sempre embriagado. Eis aí tudo: é a única questão. Para não sentirdes o horrível fardo do tempo que rompe os vossos ombros e vos inclina para o chão, é preciso embriagar-vos sem trégua. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira. Mas embriagai-vos. E se, alguma vez, nos degraus de um palácio, sobre a grama verde de um precipício, na solidão morna do vosso quarto, vós acordardes, a embriaguez já diminuída ou desaparecida, perguntai ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que foge, a tudo que geme, a tudo que anda, a tudo que canta, a tudo que fala, perguntai que horas são; e o vento, a onda, a estrela, o pássaro, o relógio, responder-vos-ão: 'É hora de embriagar-vos! Para não serdes os escravos martirizados do tempo, embriagai-vos: embriagai-vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa maneira'."


Charles Baudelaire

quarta-feira, 2 de junho de 2010

...quando você acordar, pergunte ao vento,
à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio,
a tudo que flui, a tudo que geme,
a tudo que gira, a tudo que canta,
a tudo que fala, pergunte que horas são;
e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro,
o relógio responderão...(Charles Baudelaire)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Hoje, a lua, a sonhar, mais pálida e mais fria
Tem, reclinada sobre os coxins siderais,
O langor feminil de quem acaricia,
Antes de adormecer, os seios virginais.
Sobre o fofo cetim das nuvens, desmaiada,
Nos céus, passeando o olhar, vê surgirem visões,
Que argenteas, no palor da noite, iluminada,
Ascendem para o azul, como alvas florações.
Quando, ás vezes, na terra, amorosa e discreta,
Ela deixa cair uma gota de opala,
Uma lágrima irial, de tons de catassol,
Sobre a concha da mão, notâmbulo poeta
Toma-a, para, furtiva, ir piedoso guardá-la
Dentro do coração, escondendo-a do sol.(Charles Baudelaire)

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A Vida Anterior


Imagem: Jacek Yerka
Longos anos vivi sob um pórtico alto
De gigantes pilares, nobres, dominadores,
Que a luz, vinda do mar, esmaltava de cores,
Tornando-o semelhante às grutas de basalto.

Chegavam até mim os ecos da harmonia
Do orfeão colossal das ondas chamejantes,
Ligando a sua voz às tintas deslumbrantes
Da luz crepuscular que em meus olhos fugia.

Em meio do esplendor do céu, do mar, dos lumes,
Foi-me dado gozar, voluptuosas calmas!
Escravos seminus, rescendendo perfumes,

Minha fronte febril refrescavam com palmas,
E tinham por missão apenas descobrir
A misteriosa dor que eu andava a carpir

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães

Gênio do Mal

Gostavas de tragar o universo inteiro,
Mulher impura e cruel! Teu peito carniceiro,
Para se exercitar no jogo singular,
Por dia um coração precisa devorar.
Os teus olhos, a arder, lembram as gambiarras
Das barracas de feira, e prendem como garras;
Usam com insolência os filtros infernais,
Levando a perdição às almas dos mortais.

Ó monstro surdo e cego, em maldades fecundo!
Engenho salutar, que exaure o sangue do mundo
Tu não sentes pudor? o pejo não te invade?
Nenhum espelho há que te mostre a verdade?
A grandeza do mal, com que tu folgas tanto.
Nunca, jamais, te fez recuar com espanto
Quando a Natura-mãe, com um fim ignorado,
— Ó mulher infernal, rainha do Pecado! —
Vai recorrer a ti para um génio formar?

Ó grandeza de lama! ó ignomínia sem par.

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães

Intangível


Quero-te como quero à abóbada nocturna,
Ó vazo de tristeza, ó grande taciturna!
E tanto mais te quero, ó minha bem amada,
Por te ver a fugir, mostrado-te empenhada
Em fazer aumentar, irónica, a distância

Que me separa a mim da celestial estância.
Bem a quero atingir, a abóbada estrelada,
Mas, se julgo alcançar, vejo-a mais afastada!
Pois se eu adoro até - ferro monstro, acredita! -
O teu frio desdém, que te faz mais bonita!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães

Perfume Exótico

Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,
Respiro o doce olor do teu colo abrasante,
Vejo desenrolar paisagem deslumbrante
Na auréola de luz d'um triste sol de outono;

Um éden terreal, uma indolente ilha
Com plantas tropicais e frutos saborosos;
Onde há homens gentis, fortes e vigorosos,
E mulher's cujo olhar honesto maravilha.

Conduz-me o teu perfume às paragens mais belas;
Vejo um porto ideal cheio de caravelas
Vindas de percorrer países estrangeiros;

E o perfume subtil do verde tamarindo,
Que circula no ar e que eu vou exaurindo,
Vem juntar-se em minh'alma à voz dos marinheiros.

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães

A Música


A música p'ra mim tem seduções de oceano!
Quantas vezes procuro navegar,
Sobre um dorso brumoso, a vela a todo o pano,
Minha pálida estrela a demandar!

O peito saliente, os pulmões distendidos
Como o rijo velame d'um navio,
Intento desvendar os reinos escondidos
Sob o manto da noite escuro e frio;

Sinto vibrar em mim todas as comoções
D'um navio que sulca o vasto mar;
Chuvas temporais, ciclones, convulsões

Conseguem a minh'alma acalentar.
— Mas quando reina a paz, quando a bonança impera,
Que desespero horrivel me exaspera!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães

Spleen

Quando o cinzento céu, como pesada tampa,
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,
E a sua fria cor sobre a terra se estampa,
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em húmida enxovia
D'onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,
Com a cabeça a dar no tecto apodrecido;

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece
D'uma prisão enorme os sinistros varões,
E em nossa mente em frebre a aranha fia e tece,
Com paciente labor, fantásticas visões,

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,
Lançando para os céus um brado furibundo,
Como os doridos ais de espíritos errantes
Que a chorrar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funerais deslizam tristemente
Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança,
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!

Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães

domingo, 3 de janeiro de 2010

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Aspiro a um Repouso Absoluto

Foto: Guy Bourdim
Aspiro a um repouso absoluto e a uma noite contínua.
Poeta das loucas voluptuosidades do vinho e do ópio,
não tenho outra sede a não ser a de um licor
desconhecido na Terra e que nem mesmo
a farmacopeia celeste poderia proporcionar-me;
um licor que não é feito nem de vitalidade,
nem de morte, nem de excitação, nem de nada.
Nada saber, nada ensinar, nada querer, nada sentir,
dormir e sempre dormir, tal é actualmente a minha única aspiração.
Aspiração infame e desanimadora, porém sincera.

Charles Baudelaire, in "Projectos de prólogos para «Flores do Mal»"