Significado de Devaneio: 1. Estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens; 2. Quimeras, fantasias, ficções.
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terça-feira, 19 de julho de 2011

Imagem - Andrew Atroshenko

Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu
continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso
do vôo no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira,
que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos
becos de mim, Senhor. Que meus olhos saibam continuar se alargando
sempre.(Caio Fernando Abreu)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

-Não quero saber, não.
Estamos de mal pra toda a vida.
-Olha, faz de conta que toda a vida já passou, tá?(Caio Fernando Abreu)

sábado, 14 de maio de 2011

Imagem - John Howe(Tuor encontra Ulmo, senhor dos mares - Mitologia Tolkieniana)

Quando mais nada houver,
eu me erguerei cantando,
saudando a vida
com meu corpo de cavalo jovem.

E numa louca corrida
entregarei meu ser ao ser do Tempo
e a minha voz à doce voz do vento.

Despojado do que já não há
solto no vazio do que ainda não veio,
minha boca cantará
cantos de alívio pelo que se foi,
cantos de espera pelo que há de vir.(Caio Fernando Abreu)

segunda-feira, 14 de março de 2011

Tudo que parece meio bobo
é sempre muito bonito, porque
não tem complicação. Coisa
simples é lindo. E exige
muito pouco!(Caio Fernando Abreu)

sábado, 30 de outubro de 2010


Seria tão bom se pudéssemos nos relacionar sem que nenhum dos dois esperasse absolutamente nada,
mas infelizmente nós, a gente, as pessoas, têm, temos, emoções.

[ Caio Fernando Abreu ]

Quando partiu, levava as mãos no bolso, a cabeça erguida. Não olhava para trás, porque olhar para trás era uma maneira de ficar num pedaço qualquer para partir incompleto, ficado em meio para trás. Não olhava, pois, e, pois não ficava. Completo, partiu.

[ Caio Fernando Abreu ]

Ah, fumarás demais, beberás em excesso, aborrecerás todos os amigos com tuas histórias desesperadas, noites e noites a fio permanecerás insone, a fantasia desenfreada e o sexo em brasa, dormirás dias adentro, noites afora, faltarás ao trabalho, escreverás cartas que não serão nunca enviadas, consultarás búzios, números, cartas e astros, pensarás em fugas e suicídios em cada minuto de cada novo dia chorarás desamparado atravessando madrugadas em tua cama vazia, não conseguirás sorrir nem caminhar alheio pelas ruas sem descobrires em algum jeito alheio o jeito exato dele, em algum cheiro estranho o cheiro preciso dele.

[ Caio Fernando Abreu ]

Depois de todas as tempestades e naufrágios o que fica de mim
e em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro.

[ Caio Fernando Abreu ]

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Na terra do coração


Nave, ninho, poço, mata, luz, abismo, plástico, metal, espinho, gota, pedra, lata. Passei o dia pensando – coração meu, meu coração.
Pensei e pensei tanto que deixou de significar uma forma, um órgão, uma coisa.
Ficou só com-cor, ação – repetido, invertido – ação, cor – sem sentido – couro, ação e não.
Quis vê-lo, escapava.
Batia e rebatia, escondido no peito.
Então fechei os olhos, viajei.
E como quem gira um caleidoscópio, vi:
Meu coração é um sapo rajado, viscoso e cansado, à espera do beijo prometido capaz de transformá-lo em príncipe. Meu coração é um álbum de retratos tão antigos que suas faces mal se adivinham.
Roídas de traça, amareladas de tempo, faces desfeitas, imóveis, cristalizadas em poses rígidas para o fotógrafo invisível.
Este apertava os olhos quando sorria.
Aquela tinha um jeito peculiar de inclinar a cabeça.

Eu viro as folhas, o pó resta nos dedos, o vento sopra. Meu coração é um mendigo mais faminto da rua mais miserável. Meu coração é um ideograma desenhado a tinta lavável em papel de seda onde caiu uma gota d’água.

Olhado assim, de cima, pode ser Wu Wang, a Inocência.
Mas tão manchado que talvez seja Ming I, o Obscurecimento da Luz.
Ou qualquer um, ou qualquer outro: indecifrável.
Meu coração não tem forma, apenas som.

Um noturno de Chopin (será o número 5?) em que Jim Morrison colocou uma letra falando em morte, desejo e desamparo, gravado por uma banda punk. Couro negro, prego e piano. Meu coração é um bordel gótico em cujos quartos prostituem-se ninfetas decaídas, cafetões sensuais, deusas lésbicas, anões tarados, michês baratos, centauros gays e virgens loucas de todos os sexos. Meu coração é um traço seco.

Vertical, pós-moderno, coloridíssimo de neon, gravado em fundo preto.
Puro artifício, definitivo. Meu coração é um entardecer de verão, numa cidadezinha à beira-mar.

A brisa sopra, saiu a primeira estrela.
Há moças na janela, rapazes pela praça, tules violetas sobre os montes onde o sol se pôs.
A lua cheia brotou do mar.

Os apaixonados suspiram.
E se apaixonam ainda mais. Meu coração é um anjo de pedra de asa quebrada. Meu coração é um bar de uma única mesa,
debruçado sobre a qual um único bêbado bebe um único copo de bourbon,
contemplado por um único garçom.
Ao fundo, Tom Waits geme um único verso arranhado.
Rouco, louco. Meu coração é um sorvete colorido de todas as cores, é saboroso de todos os sabores.
Quem dele provar, será feliz para sempre. Meu coração é uma sala inglesa com paredes cobertas por papel de florzinhas miúdas.
Lareira acesa, poltronas fundas, macias, quadros com gramados verdes e casas pacíficas cobertas de hera.
Sobre a renda branca da toalha de mesa, o chá repousa em porcelana da China.
No livro aberto ao lado, alguém sublinhou um verso de Sylvia Plath: “Im too pure for you or anyone”.
Não há ninguém nessa sala de janelas fechadas. Meu coração é um filme noir projetado num cinema de quinta categoria.

A platéia joga pipoca na tela e vaia a história cheia de clichês. Meu coração é um deserto nuclear varrido por ventos radiativos. Meu coração é um cálice de cristal puríssimo transbordante de licor de strega. Flambado, dourado.

Pode-se ter visões, anunciações, pressentimentos,
ver rostos e paisagens dançando nessa chama azul de ouro. Meu coração é o laboratório de um cientista louco varrido, criando sem parar Frankensteins monstruosos que sempre acabam destruindo tudo. Meu coração é uma planta carnívora morta de fome. Meu coração é uma velha carpideira portuguesa, coberta de preto, cantando um fado lento e cheia de gemidos – ai de mim! ai, ai de mim! Meu coração é um poço de mel, no centro de um jardim encantado, alimentando beija-flores que, depois de prová-lo, transformam-se magicamente em cavalos brancos alados que voam para longe, em direção à estrela Veja.

Levam junto quem me ama, me levam junto também. Faquir involuntário, cascata de champanha, púrpura rosa do Cairo, sapato de sola furada, verso de Mário Quintana, vitrina vazia, navalha afiada, figo maduro,
papel crepom, cão uivando pra lua, ruína, simulacro, varinha de incenso.

Acesa, aceso – vasto, vivo: meu coração teu.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010


Amar o mesmo de si no outro às vezes acorrenta.

Quem é você? Quem sou eu? Sei apenas que navegamos no mesmo barco furado, e nosso porto é desconhecido. Você tem seus jeitos de tentar (...)

"Vontade que você estivesse aqui e eu pudesse te mostrar muitas coisas, grandes, pequenas,
e sem nenhuma importância, algumas."

Não se preocupe, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais auto-destrutiva do que insistir sem fé nenhuma?

"Tô tirando férias, dando um tempo disso, chega de amar, chega de me doar, chega de me doer."

Mas a vontade é te convidar pra sair por aí sem compromisso brincar de tobogã no arco-íris qualquer coisa assim: você topa?


Em luta, meu ser se parte em dois. Um que foge, outro que aceita.

"Eu quero mesmo é alguém que faça meu corpo querer companhia nos momentos em que minha mente insiste pela solidão..."

Eu não quero pensar no que virá: quero pensar no que é. Agora. No que está sendo.
Pensar no que ainda não veio é fugir.

Pensar é ainda fuga: aprender subjetivamente a realidade de maneira a não assustar.
Entrar nela significa viver.

"- Que tipo de casa você queria ser? (...) - Queria ser um apartamento.
- Sei, mas que tipo? - Uma quitinete. Sem telefone."