Significado de Devaneio: 1. Estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens; 2. Quimeras, fantasias, ficções.
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terça-feira, 13 de março de 2012

Tenho avidez pelo mundo, tenho desejos fortes e definidos,
hoje de noite irei dançar e comer, não usarei o vestido
azul, mas o preto-e-branco. Mas, ao mesmo tempo, não preciso de nada.
Não preciso sequer que uma árvore existe. Embora, quanto
aos meus desejos, às minhas paixões, ao meu contato com a árvore,
elas continuem sendo para mim uma boca comendo.
A despersonalização como destituição da individualidade inútil
- a perda de tudo que se possa perder e ainda assim,
ser.(Clarice Lispector)

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011


"A aproximação do que quer que seja se faz gradualmente e penosamente
- atravessando inclusive o oposto daquilo a que se vai aproximar."


Clarice Lispector

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Doçura


Nasci dura, heróica, solitária e em pé.
E encontrei meu contraponto na paisagem
sem pitoresco e sem beleza.
A feiúra é o meu estandarte de guerra.
Eu amo o feio com um amor de igual para igual.
E desafio a morte.
Eu - eu sou a minha própria morte.
E ninguém vai mais longe.
O que há de bárbaro em mim
procura o bárbaro e cruel fora de mim.
Vejo em claros e escuros os rostos das pessoas
que vacilam às chamas da fogueira.
Sou uma árvore que arde com duro prazer.
Só uma doçura me possui:
a conivência com o mundo.
Eu amo a minha cruz,
a que doloridamente carrego.
É o mínimo que posso fazer de minha vida:
aceitar comiseravelmente o sacrifício da noite.

Clarice Lispector

domingo, 19 de setembro de 2010

Uma Vida Maior


Estou querendo viver daquilo inicial e primordial que exatamente fez com que certas coisas chegassem ao ponto de aspirar a serem humanas. Estou querendo que eu viva da parte humana mais difícil: que eu viva do germe do amor neutro, pois foi dessa fonte que começou a nascer aquilo que depois foi se distorcendo em sentimentações a tal ponto que o núcleo ficou esmagado em nós mesmos pela pata humana. É um amor muito maior que estou exigindo de mim – é uma vida tão maior que não tem sequer beleza. Estou tendo essa coragem dura que me dói como a carne que se transforma em parto.


Clarice Lispector, in 'A Paixão Segundo G.H.' 

terça-feira, 27 de julho de 2010


"Por te falar, eu te assustarei e te perderei?
Mas se eu não falar eu me perderei - e por me perder eu te perderia."

(Clarice Lispector)

quinta-feira, 8 de julho de 2010


é tão difícil falar e dizer coisas que não podem ser ditas.
é tão silencioso.
como traduzir o silêncio do encontro real entre nós dois?
dificílimo contar.
olhei pra você fixamente por instantes.
tais momentos são meus segredos.
houve o que se chama de comunhão perfeita.
eu chamo isto de estado agudo de felicidade.

(Clarice Lispector)

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A Lucidez Perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.
Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade
- essa clareza de realidade
é um risco.
Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém.(Clarice Lispector)

quarta-feira, 2 de junho de 2010


O que é preciso é não ir demais contra a onda.

Isso é uma forma de lutar: esperar, ter

paciência, perdoar, amar os outros.

E cada dia aperfeiçoar o dia.(Clarice Lispector)

domingo, 18 de abril de 2010


"Me perco, me procuro e me acho.
E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar (!)"

Clarice Lispector

quarta-feira, 24 de março de 2010

Os fatos são sonoros. O que importa são os
silêncios por trás deles.

(Clarice Lispector)

segunda-feira, 22 de março de 2010

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Luto por conquistar mais profundamente
a minha liberdade de sensações e pensamentos,
sem nenhum sentido utilitário:
sou sozinha, eu e minha liberdade.
É tamanha a liberdade que pode escandalizar um primitivo
mas sei que não te escandalizas com a plenitude que consigo
e que é sem fronteiras perceptíveis.
Esta minha capacidade de viver o que é redondo e amplo
— cerco-me por —
plantas carnívoras e animais legendários,
tudo banhado pela tosca e esquerda luz de um sexo mítico.
Vou adiante de modo intuitivo e sem procurar uma idéia:
sou orgânica.
E não me indago sobre os meus motivos.
Mergulho na quase dor de uma intensa alegria
— e para me enfeitar —
nascem entre os meus cabelos folhas e ramagens.

(Clarice Lispector)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta
nosso edifício inteiro.(Clarice Lispector)

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Quero escrever o borrão vermelho de sangue




Quero escrever o borrão vermelho de sangue
com as gotas e coágulos pingando
de dentro para dentro.
Quero escrever amarelo-ouro
com raios de translucidez.
Que não me entendam
pouco-se-me-dá.
Nada tenho a perder.
Jogo tudo na violência
que sempre me povoou,
o grito áspero e agudo e prolongado,
o grito que eu,
por falso respeito humano,
não dei.

Mas aqui vai o meu berro
me rasgando as profundas entranhas
de onde brota o estertor ambicionado.
Quero abarcar o mundo
com o terremoto causado pelo grito.
O clímax de minha vida será a morte.

Quero escrever noções
sem o uso abusivo da palavra.
Só me resta ficar nua:
nada tenho mais a perder.

O Sonho acordado é que é a realidade


A última palavra será a quarta dimensão.
Comprimento: ela falando
Largura: atrás do pensamento
Profundidade: eu falando dela, dos fatos e sentimentos
e de seu atrás do pensamento.

Eu tenho que ser legível quase no escuro.

Tive um sonho nítido inexplicável: sonhei que brin­cava com o meu reflexo. Mas meu reflexo não estava num espelho, mas refletia uma outra pessoa que não eu.

Por causa desse sonho é que inventei Ângela como meu reflexo? Tudo é real mas se move va-ga-ro-sa-men-te em câmara lenta. Ou pula de um tema a outro, desconexo. Se me desenraízo fico de raiz exposta ao vento e à chuva. Friável. E não como o granito azu­lado e pedra de Iansã sem fenda nem frincha. Ângela por enquanto tem uma tarja sobre o rosto que lhe es­conde a identidade.
[...]
Só me interessa escrever quando eu me surpreendo com o que escrevo. Eu prescindo da realidade porque posso ter tudo através do pensamento.

A realidade não me surpreende. Mas não é ver­dade: de repente tenho uma tal fome da "coisa acon­tecer mesmo" que mordo num grito a realidade com os dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi. E por muito tempo, de novo, pres­cindo da realidade real e me aconchego em viver da imaginação.

Trecho da obra: "Um sopro de vida"

Entendi então que, de qualquer modo, viver é uma grande bondade para com os outros. Basta viver, e por si mesmo isto resulta na grande bondade. Quem vive totalmente está vivendo para os outros, quem vive a própria largueza está fazendo uma dádiva, mesmo que sua vida se passe dentro da incomunicabilidade de uma cela. Viver é dádiva tão grande que milhares de pessoas se beneficiam com cada vida vivida.

[...]
E é inútil procurar encurtar caminho e querer começar já sabendo que a voz diz pouco, já começando por ser despessoal. Pois existe a trajetória, e a trajetória não é apenas um modo de ir. A trajetória somos nós mesmos. Em matéria de viver, nunca se pode chegar antes. A via-crucis não é um descaminho, é a passagem única, não se chega senão através dela e com ela. A insistência é o nosso esforço, a desistência é o prêmio. A este só se chega quando se experimentou o poder de construir, e, apesar do gosto de poder, prefere-se a desistência. A desistência tem que ser uma escolha. Desistir é a escolha mais sagrada de uma vida. Desistir é o verdadeiro instante humano. E só esta é a glória própria de minha condição.
A desistência é uma revelação.

Trecho da obra: "A paixão segundo G.H."

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009


...da lua ela não tinha receio porque era
mais lunar que solar e via de olhos bem
abertos nas madrugadas tão escuras
a lua sinistra no céu.
Então ela se banhava toda nos
raios lunares...
E ficava profundamente límpida.

(Clarice Lispector)

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Barulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.
No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.

(Clarice Lispector)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009


Mas, indo bem mais fundo,
chego muito pensativa à conclusão
de que não existe nada mais difícil
que entregar-se totalmente.
Essa dificuldade é uma das dores humanas.

(Clarice Lispector)