Significado de Devaneio: 1. Estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens; 2. Quimeras, fantasias, ficções.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Joaquim Sapé

Os ornamentos de trapo de Joaquim Sapé já estavam
criando cabelo de tão sujos.
Joaquim atravessava as ruelas da Aldeia como se fosse
um Príncipe.
Com aqueles ornamentos de trapo.
Quando entrava na Aldeia com o saco de lata às
costas
Crianças o arrodeavam.
Um dia me falou, esse andarilho (eu era criança):
- Quando chove nos braços de um formiga, o
horizonte diminui.
O menino ficou com a frase incomodando na cabeça.
Como é que esse Joaquim Sapé, que mora debaixo do
chapéu, e que nem tem aparelho de medir céu, pode
saber que os horizontes diminuem quando chove nos
braços de uma formiga?
Se nem quase formiga tem braço!
Igual quando ele me disse que do lado esquerdo do
sol voam mais andorinhas do que os outros pássaros?
Pois ele não tinha aparelho de medir o sol, como
podia saber!
Ele seria um ensaio de cientista?
Ele enxergava prenúncios!(Manoel de Barros)

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

(...)
Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros,
assim de encantamentos, como pendências, batalhas,
desafios, feridas, requebros, amores, tormentas, e
disparates impossíveis: e assentou-se-lhe de tal modo
na imaginação ser verdade toda aquela máquina de
sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história
mais certa no mundo.(Miguel de Cervantes)

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Parangolé



Se eu não tivesse um conceito de realidade, diria que era sonho.

Seria possível sentir o gosto da felicidade com todos os temperos?

São tantos os sabores, me perco!

Por muito tempo pensei que felicidade e prazeres eram possíveis tão somente em sonhos,

por que em sonho tudo é possível, até mesmo morrer e continuar vivo.

Sonhar tornou-se compulsivo, antes de eu saber que minha realidade era um sonho.

E sonhar com os olhos abertos é muito mais gostoso.

No sonho da realidade a vida vale à pena, tudo é realmente possível.

Acontece, é sentido. “Não há sentido sem palavras nem mundo sem linguagem”

Quanto mais palavras conheço, quanto mais conceitos posso articular, maior é meu mundo,

maior é o alcance e amplitude de minha consciência de realidade.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Imagem - William blake (Ancient of Days)


Tenho a impressão de que a única coisa que nos permite olhar este mundo em que vivemos sem asco é a beleza que, de vez em quando, os homens fazem brotar do caos. Os quadros que pintam, as músicas que compõem, os livros que escrevem e a vida que levam. De todas estas coisas a mais rica em beleza é a vida, quando é bela. É a obra de arte suprema. (W. Somerset Maugham)

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Coisas, coisas

A despeito do amor,
as coisas todas
se fizeram ao mar.
Não quis retê-las.
Não conheci regresso.
Coisas, coisas
vos amei por excesso.
E o universo
me foi alto preço.

Todos os bens
vendidos em leilão.
O ar vendido.
Os rios.
As estações.

Comprei arrobas de chuva
ao meu pomar.
Trouxe neblina
de arrasto
pela morte.

Comprei a noite
e dei o menor lance
ao horizonte.

Coisas, coisas
vos amei por excesso. (Carlos Nejar)

Papai Noel às Avessas

Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.

Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.

Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.

Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.

Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.

Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes. (Carlos Drummond De Andrade)

Que bobagem falar que é nas grandes

ocasiões que se conhece os amigos!

Nas grandes ocasiões é que não

faltam amigos. Principalmente neste

Brasil de coração mole e escorrendo.

E a compaixão, a piedade, a pena,

se confundem com amizade. Por isso

tenho horror das grande ocasiões.

Prefiro as quartas-feiras. (Mário de Andrade)

sábado, 3 de dezembro de 2011

Imagem - David Cox

São como um cristal
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm , cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas,
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras? (Eugénio de Andrade)

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Imagem - Ceslovas Cesnakevicius

(Tem vez que a natureza ataca o cisco para o bem.)
Principais elementos do cisco são: gravetos, areia,
cabelos, pregos, trapos, ramos secos, asas de mosca,
grampos, cuspe de aves, etc.
Há outros componentes do cisco, porém de menos
importância.
Depois de completo, o cisco se ajunta, com certa
humildade, em beiras de ralos, em raiz de parede,
ou, depois das enxurradas, em alguma depressão de
terreno.
Mesmo bem rejuntado o cisco produz volumes quase
sempre modestos.
O cisco é infenso a fulgurâncias.
Depois de assentado em lugar próprio, o cisco
produz material de construção para ninhos de
passarinhos.
Ali os pássaros vão buscar raminhos secos, trapos,
asas de mosca
para a feitura de seus ninhos.
O cisco há de ser sempre aglomerado que se iguala
a restos.
Que se iguala a restos a fim de obter a contemplação
dos poetas.
Aliás, Lacan entregava aos poetas a tarefa de
contemplação dos restos.
E Barthes completava: Contemplar os restos é
narcisismo.
Ai de nós!
Porque Narciso é a pátria dos poetas.
Um dia pode ser que o lírio nascido nos monturos
empreste qualidade de beleza ao cisco.
Tudo pode ser.
Até sei de pessoas que propendem a cisco mais do
que a seres humanos. (Manoel de Barros), Tratado geral das coisas do ínfimo.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

Meninos

Onde estão Zeca Mulato, Encarnadinho, Culó?
Onde, Ivan o Terrível, Piru Maluco, Antena Antenor
e Lenine e a trinca inteira do Curvelo?
Vivem por aí, resignados? indomáveis?
Desapareceram no imenso anonimato?
Estarão todos dormindo
profundamente?

Não.
De mão dadas com os meninos carvoeiros,
os meninos pobres fascinados pelos balõezinhos de feira livre
e a molecada da Rua do Sabão,
estão todos presentes, estão todos unidos
imutáveis
na ternura do poeta. (Carlos Drummond De Andrade), em Poesia Errante.

Antologia

Felismente existe o álcool na vida.
Uns tomam éter, outros, cocaína.
Eu tomo alegria!
Minha ternura dentuça é dissimulada.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Estou farto do lirismo comedido.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
Pura ou degradada até a última baixeza
eu quero a estrela da manhã.
...os corpos se entendem, mas as almas não.
- Bendita a morte, que é o fim de todos os milagres. (Carlos Drummond De Andrade),
em Poesia Errante.
Cometa bobagens. Não pense demais porque o
pensamento mudou assim que se pensou...
Cometa bobagens. Dispute uma corrida com o silêncio.
Não há anjo a salvar os ouvidos, não há semideus a cerrar a boca para que
o seu futuro do passado não seja ressentimento...
Não seja séria: a seriedade é duvidosa; seja alegre; a alegria é interrogativa.
Quem ri não devolve o ar que respira...
Seja imprudente porque, quando se anda em linha reta,
não há história prá contar...
Não espere as segundas intenções para chegar às primeiras...
Ligue sem motivo para o amigo, leia o livro sem procurar coerência,
ame sem pedir contrato, esqueça de ser o que os outros esperam,
para ser os outros em você...
Alterne a respiração com um beijo...
Solte palavrão para valorizar depois cada palavra de afeto.
Complique o que é muito simples...
Cometa bobagens. Ninguém lembra do que foi normal.
Que as suas lembranças não sejam o que ficou por dizer.
É preferível a coragem da mentira à covardia da verdade. (Fabrício Carpinejar)

O urubuzeiro

Meu amigo Sebastião estourou a infância dele e mais
duas pernas.
No mergulho contra uma pedra na Cacimba da Saúde.
Quarenta ano mais tarde Sebastião remava uma canoa
no rio Paraguaio.
E deu o barranco de uma charqueada.
Sebastião subiu o barranco se arrastando como um
caranquejo trôpego
Até a casa do patrão e pediu um trabalho.
O patrão olhou para aquele pedaço de pessoa e disse:
Você me serve para urubuzeiro.
(Urubuzeiro era tarefa de espantar os urubus que
atentavam nos tendais de carne).
Trabalho de Sebastião era espantar os urubus.
Sebastião espantava espantava espantava.
Os urubus voltavam de bandos.
Sebastião espantava espantava.
Um dia pegaram Sebastião a prosear em estrangeiro
com os urubus.
Chegou que Sebastião permitiu que os urubus
fizessem farra nas carnes.
Os urubus faziam farra e conversavam em estrangeiro
com Sebastião.
Veio o patrão e mandou Sebastião para o manicômio.
No manicômio ninguém compreendia a língua de
Sebastião.
De forma que Sebastião despencou do seu normal
E foi encontrado na rua falando sozinho em
estrangeiro. (Manoel de Barros)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Se as minhas mãos pudessem desfolhar

Eu pronuncio teu nome
nas noites escuras,
quando vêm os astros
beber na lua
e dormem nas ramagens
das frondes ocultas.
E eu me sinto oco
de paixão e de música.
Louco relógio que canta
mortas horas antigas.

Eu pronuncio teu nome,
nesta noite escura,
e teu nome me soa
mais distante que nunca.
Mais distante que todas as estrelas
e mais dolente que a mansa chuva.

Amar-te-ei como então
alguma vez? Que culpa
tem meu coração?
Se a névoa se esfuma,
que outra paixão me espera?
Será tranqüila e pura?
Se meus dedos pudessem
desfolhar a lua!! (Federico García Lorca)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011



A saudade hoje trouxe um tom diferente...
Diferente da tarde,
a manhã estava clara e o gosto da saudade ainda era doce.

... Esperei pelo som das cores,
das tuas,
das minhas,
havia apenas um silêncio gritante.

Mas, que agonia essa minha,
esperar pelas tuas cores,
enquanto posso degustar tua ausência doce.

Degustar a falta de alguém que existe,
é melhor e menos triste,
que matar o sentido que insiste.

Sentido que não é silêncio,
Transborda, derrete,
Alucina e, entorpece.

Meu coração,
Invertido...
Gosta de dançar contigo.


Fernanda Mendes.