Significado de Devaneio: 1. Estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens; 2. Quimeras, fantasias, ficções.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Imagem - Candido Portinari(Casamento na roça)

A FAMÍLIA LYRA


A família Lyra,
que o poeta admira,
é encantadora.
Faz música fina,
quitanda divina.
Faz arte e reparte
com engenho e arte.
Carlos tange a lyra
e é também astrólogo.
Retifica os signos,
esclarece dúvidas.
Eu, Escorpião?
Sempre sofri muito
por estar jungido
a essa danação
do bichinho mau.

Carlos me socorre,
me passa pra Libra.
Obrigado, amigo!
Obrigado, Kate,
Que em lugar de broa
faz um doce cake,
gulodices mil,
qual mais requintada,
múltiplos sabores,
inefáveis gozos
de gula celeste.
Obrigado, Carlos,
Obrigado, Kate!
À família Lyra
todo o meu carinho.
Carlos, de Itabira.(Carlos Drummond De Andrade)

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Verbalismo.


Seja mais e evite a mitomania.
Com cores e imagens cole os pedaços,
Seja o endossador das próprias loucuras!
Saia do claro escuro que assombra os pensamentos,
Das palavras soltas que invadem a sala faça uma música.
Deixe de parangolé!
Conte seus mistérios,
Se sério for, guardo segredo.
Deixe de lufar.
Acredite!
Largue os parâmetros,
Esqueça as estatísticas...
Traduza o pensamento,
Chore se quiser, se ajudar... Grite!
Não dissimule a situação,
Apenas faça-me um arpejo e tome um capilé.

(Fernanda Mendes)

quinta-feira, 21 de julho de 2011


É com grande pesar que venho informar para todos os leitores do Devaneio, que eu, Breisi,criadora e organizadora do devaneio, perdi minha conta no google. Conta esta que dava acesso ao devaneio. Já tentei recuperar a conta e preenchi um formulário, mas a resposta que recebi do google foi negativa, e fiquei assim, sem blog, sem devaneio.

Agora quem pode postar no devaneio é o Menino Verde e a Fernanda Mendes(esta muito atarefada, por isso não postou nada ainda).


OBS: O layout do blog e toda a sua estrutura, eram organizados por mim. Agora como estou sem acesso, o blog ficará deste jeito por tempos infinitos.
Outra coisa, como os outros membros do blog eram apenas escritores, eles não podem me convidar para fazer parte novamente no blog, e das postagens.

Mas logo logo, divulgarei outro canto meu, um outro espaço onde eu possa expressar a arte de alguma maneira que ela seja vista.

Agradeço a compreensão de todos.
Atenciosamente
@bere_atomica


terça-feira, 19 de julho de 2011

Imagem - Andrew Atroshenko

Que eu não perca a capacidade de amar, de ver, de sentir. Que eu
continue alerta. Que, se necessário, eu possa ter novamente o impulso
do vôo no momento exato. Que eu não me perca, que eu não me fira,
que não me firam, que eu não fira ninguém. Livra-me dos poços e dos
becos de mim, Senhor. Que meus olhos saibam continuar se alargando
sempre.(Caio Fernando Abreu)
A página branca indicará o discurso
Ou a supressão do discurso?
A página branca aumenta a coisa
Ou ainda diminui o mínimo?
O poema é o texto? O poeta?
O poema é o texto + o poeta?
O poema é o poeta – o texto?
O texto é o contexto do poeta
Ou o poeta é o contexto do texto?
O texto visível é o texto total
O antetexto o antitexto
Ou as ruínas do texto?
O texto abole
Cria
Ou restaura?(Murilo Mendes)

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Imagem - Salvador Dalí(The Disintegration of the Persistence of Memory), 1952

O pensamento humano, é mais sutil e veloz que a luz,
sobe e se eleva mais alto que as nuvens, e no seu
vôo assombroso transcende as barreiras do universo visível,
contempla e se expande na imensidade.(Marquês de Maricá)
-Não quero saber, não.
Estamos de mal pra toda a vida.
-Olha, faz de conta que toda a vida já passou, tá?(Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 31 de maio de 2011

Canção do ver

1.

Por viver muitos anos dentro do mato
moda ave
O menino pegou um olhar de pássaro —
Contraiu visão fontana.
Por forma que ele enxergava as coisas
por igual
como os pássaros enxergam.
As coisas todas inominadas.
Água não era ainda a palavra água.
Pedra não era ainda a palavra pedra.
E tal.
As palavras eram livres de gramáticas e
podiam ficar em qualquer posição.
Por forma que o menino podia inaugurar.
Podia dar às pedras costumes de flor.(Manoel de Barros), "Poemas rupestres"

Canção do ver

2.

A de muito que na Corruptela onde a gente
vivia
Não passava ninguém
Nem mascate muleiro
Nem anta batizada
Nem cachorro de bugre.
O dia demorava de uma lesma.
Até uma lacraia ondeante atravessava o dia
por primeiro do que o sol.
E essa lacraia ainda fazia uma estação de
recreio no circo das crianças
a fim de pular corda.
Lembrava a tartaruga de Creonte
que quando chegava na outra margem do rio
as águas já tinham até criado cabelo.
Por isso a gente pensava sempre que o dia
de hoje ainda era ontem.
A gente se acostumou de enxergar antigamentes.(Manoel de Barros), "Poemas rupestres"

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Canção do ver

3.

Por forma que o dia era parado de poste.
Os homens passavam as horas sentados na
porta da Venda
de Seo Mané Quinhentos Réis
que tinha esse nome porque todas as coisas
que vendia
custavam o seu preço e mais quinhentos réis.
Seria qualquer coisa como a Caixa Dois dos
prefeitos.
O mato era atrás da Venda e servia também
para a gente desocupar.
Os cachorros não precisavam do mato para
desocupar
Nem as emas solteiras que despejavam correndo.
No arruado havia nove ranchos.
Araras cruzavam por cima dos ranchos
conversando em ararês.
Ninguém de nós sabia conversar em ararês.
Os maridos que não ficavam de prosa na porta
da Venda
Iam plantar mandioca
Ou fazer filhos nas patroas.
A vida era bem largada.
Todo mundo se ocupava da tarefa de ver o dia
atravessar.
Pois afinal as coisas não eram iguais às cousas?
Por tudo isso, na Corruptela parecia nada
acontecer.(Manoel de Barros), "Poemas rupestres"

Canção do ver

4.

Por forma que a nossa tarefa principal
era a de aumentar
o que não acontecia.
(Nós era um rebanho de guris.)
A gente era bem-dotado para aquele serviço
de aumentar o que não acontecia.
A gente operava a domicílio e pra fora.
E aquele colega que tinha ganho um olhar
de pássaro
Era o campeão de aumentar os desacontecimentos.
Uma tarde ele falou pra nós que enxergara um
lagarto espichado na areia
a beber um copo de sol.
Apareceu um homem que era adepto da razão
e disse:
Lagarto não bebe sol no copo!
Isso é uma estultícia.
Ele falou de sério.
Ficamos instruídos.(Manoel de Barros), "Poemas rupestres"

Canção do ver

5.

Com aquela sua maneira de sol entrar em casa
E com o seu olhar furado de nascentes
O menino podia ver até a cor das vogais –
Como o poeta Rimbaud viu.
Contou que viu a tarde latejas de andorinhas.
E viu a garça pousada na solidão de uma pedra.
E viu outro lagarto que lambia o lado azul do
silêncio.
Depois o menino achou na beira do rio uma pedra
canora.
Ele gostava de atrelar palavras de rebanhos
diferentes
Só para causar distúrbios no idioma.
Pedra canora causa!
E um passarinho que sonhava de ser ele também
causava.
Mas ele mesmo, o menino
Se ignorava como as pedras se ignoram.(Manoel de Barros), "Poemas rupestres"

Canção do ver

6.

Desde sempre parece que ele fora preposto a pássaro.
Mas não tinha preparatórios de uma árvore
Pra merecer no seu corpo ternuras de gorjeios.
Ninguém de nós, na verdade, tinha força de fonte.
Ninguém era início de nada.
A gente pintava nas pedras a voz.
E o que dava santidade às nossas palavras era
a canção do ver!
Trabalho nobre aliás mas sem explicação
Tal como costurar sem agulha e sem pano.
Na verdade na verdade
Os passarinhos que botavam primavera nas palavras.(Manoel de Barros), "Poemas rupestres"

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Canção do ver

7.

A turma viu uma perna de formiga, desprezada,
dentro do mato. Era uma coisa para nós muito
importante. A perna se mexia ainda. Eu diria que
aquela perna, desprezada, e que ainda se mexia,
estava procurando a outra parte do seu corpo,
que deveria estar por perto. Acho que o resto da
formiga, naquela altura do sol, já estaria dentro
do formigueiro sendo velada. Ou talvez o resto
do corpo estaria a procurar aquela perna
desprezada. Ninguém viu o que foi que produziu
aquela desunião do corpo com a perna desprezada.
Algumas pessoas passavam por ali, naquele trato
de terra, e ninguém viu a perna desprezada. Todos
saímos a procurar o pedaço principal da formiga.
Porque pensando bem o resto da formiga era a
perna desprezada. Fomos à beira do rio mas só
encontramos pedaços de folhas verdes carregados
por novas formigas. Achamos a seguir que as novas
formigas que carregavam as folhas nos ombros, elas
estavam indo para assistir, no formigueiro, ao
velório da outra parte da formiga. Mas a gente
resolveu por antes tomar um banho de rio.(Manoel de Barros), "Poemas rupestres"

terça-feira, 17 de maio de 2011

Canção do ver

Imagem - Daniel Merriam


8.

Fomos rever o poste.
O mesmo poste de quando a gente brincava de pique
e de esconder.
Agora ele estava tão verdinho!
O corpo recoberto de limo e borboletas.
Eu quis filmar o abandono do poste.
O seu estar parado.
O seu não ter voz.
O seu não ter sequer mãos para se pronunciar com
as mãos.
Penso que a natureza o adotara em árvore.
Porque eu bem cheguei de ouvir arrulos de passarinhos
que um dia teriam cantado entre as suas folhas.
Tentei transcrever para flauta a ternura dos arrulos.
Mas o mato era mudo.
Agora o poste se inclina para o chão — como alguém
que procurasse o chão para repouso.
Tivemos saudades de nós.(Manoel de Barros), "Poemas rupestres"