terça-feira, 28 de fevereiro de 2012
quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012
Ao sopro da transfiguração noturnaDistingo os fantasmas de homens
Em busca da liberdade perdida:
Quisera possuir cem milhões de bocas,
Quisera possuir cem milhões de braços
Para gritar por todos eles
E de repente deter a roda descomunal
Que tritura corpos e almas
Com direito ao orvalho da manhã,
À presença do amor, à música dos pássaros,
A estas singelas flores, a este pão.(Murilo Mendes)
domingo, 12 de fevereiro de 2012
Escultura - Auguste Rodin(The Burghers of Calais 1884-86)
que Rodin esculpiu: nus de seus orgulhos e
de suas esperanças. Só de camisolões e de
cordas no pescoço. Pesados de silêncio e da
tarefa de morrer.
(Morrer é uma coisa indestrutível.)
(Manoel de Barros), Retrato do artista quando coisa.
segunda-feira, 23 de janeiro de 2012
Imagem - Remedios Varo(Revelación o el relojero. - 1955.)
faz ele trabalhar e ele nunca se degenera.
Viverá melhor os anos que vive, é isso o interessante.
A chave é manter curiosidades, empenho,
ter paixões…(Rita Levi-Montalcini)
Imagem - Willian A. R. Ferreira(A Velha e as Letras Podres)
Tempo difícil para as pessoas desse mundo:
quem tinha tempo para a poesia?
Pois ela comprou um carrinho invisível
e começou a catar palavrão.(Rita Apoena)
Joaquim Sapé
criando cabelo de tão sujos.
Joaquim atravessava as ruelas da Aldeia como se fosse
um Príncipe.
Com aqueles ornamentos de trapo.
Quando entrava na Aldeia com o saco de lata às
costas
Crianças o arrodeavam.
Um dia me falou, esse andarilho (eu era criança):
- Quando chove nos braços de um formiga, o
horizonte diminui.
O menino ficou com a frase incomodando na cabeça.
Como é que esse Joaquim Sapé, que mora debaixo do
chapéu, e que nem tem aparelho de medir céu, pode
saber que os horizontes diminuem quando chove nos
braços de uma formiga?
Se nem quase formiga tem braço!
Igual quando ele me disse que do lado esquerdo do
sol voam mais andorinhas do que os outros pássaros?
Pois ele não tinha aparelho de medir o sol, como
podia saber!
Ele seria um ensaio de cientista?
Ele enxergava prenúncios!(Manoel de Barros)
sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Encheu-se-lhe a fantasia de tudo que achava nos livros,
assim de encantamentos, como pendências, batalhas,
desafios, feridas, requebros, amores, tormentas, e
disparates impossíveis: e assentou-se-lhe de tal modo
na imaginação ser verdade toda aquela máquina de
sonhadas invenções que lia, que para ele não havia história
mais certa no mundo.(Miguel de Cervantes)
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Parangolé

Se eu não tivesse um conceito de realidade, diria que era sonho.
Seria possível sentir o gosto da felicidade com todos os temperos?
São tantos os sabores, me perco!
Por muito tempo pensei que felicidade e prazeres eram possíveis tão somente em sonhos,
por que em sonho tudo é possível, até mesmo morrer e continuar vivo.
Sonhar tornou-se compulsivo, antes de eu saber que minha realidade era um sonho.
E sonhar com os olhos abertos é muito mais gostoso.
No sonho da realidade a vida vale à pena, tudo é realmente possível.
Acontece, é sentido. “Não há sentido sem palavras nem mundo sem linguagem”
Quanto mais palavras conheço, quanto mais conceitos posso articular, maior é meu mundo,
maior é o alcance e amplitude de minha consciência de realidade.
quarta-feira, 21 de dezembro de 2011
Imagem - William blake (Ancient of Days)
quarta-feira, 14 de dezembro de 2011
A despeito do amor,
as coisas todas
se fizeram ao mar.
Não quis retê-las.
Não conheci regresso.
Coisas, coisas
vos amei por excesso.
E o universo
me foi alto preço.
Todos os bens
vendidos em leilão.
O ar vendido.
Os rios.
As estações.
Comprei arrobas de chuva
ao meu pomar.
Trouxe neblina
de arrasto
pela morte.
Comprei a noite
e dei o menor lance
ao horizonte.
Coisas, coisas
vos amei por excesso. (Carlos Nejar)
Papai Noel às Avessas
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.
Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai entrou compenetrado.
Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.
Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.
Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes. (Carlos Drummond De Andrade)
Que bobagem falar que é nas grandes
ocasiões que se conhece os amigos!
Nas grandes ocasiões é que não
faltam amigos. Principalmente neste
Brasil de coração mole e escorrendo.
E a compaixão, a piedade, a pena,
se confundem com amizade. Por isso
tenho horror das grande ocasiões.
Prefiro as quartas-feiras. (Mário de Andrade)











