Significado de Devaneio: 1. Estado de espírito de quem se deixa levar por lembranças, sonhos e imagens; 2. Quimeras, fantasias, ficções.

domingo, 7 de março de 2010

Inventou de ir pro céu
Só pra se dar com as estrelas
Inventou de ir pro céu
Pra se encontrar com as estrelas
O alvo era boca da noite
Atirava-se na brincadeira
Só pra se dar com as estrelas
Sentado debaixo do céu
Sentado de frenta pro mar
Sem estar contando estrelas
Sem estar esperando a paz
Viva e lambuze que a vida é sua
E a lua nos reboca pro céu.(Dazaranha)
Caminho trilhas sinuosas
enquanto árvores retas
me cortam com folhas
retangulares.
Com isso,
enquanto uma parte quer freiar,
acelero.
Corro e cortes cortam
meus braços e pernas
irregulares teimosos.
Paz
é correr mais.
(De longe acham que vôo.)

(Fabio Rocha)
No poema e nas nuvens
cada qual descobre o que deseja ver.(Helena Kolody)
Erraram quando dividiram o tempo
e o puseram em relógios...
Agora dependendo de dias e horas.
Agora há tempo pra contar,
tempo para te ver,
tempo demais para saber
o quanto você demora...(Cah Morandi)
Transforma-se o amador na cousa amada,
Por virtude do muito imaginar;
Não tenho logo mais que desejo,
Pois em mim tenho a parte desejada
Se nela está minha alma transformada,
Que mais deseja o corpo de alcançar?
Em si somente pode descansar,
Pois consigo tal alma está liada.
Mas esta linda e pura semidéia,
Que, como o acidente em seu sujeito,
Assim com a alma minha se conforma,
Está no pensamento como idéia;
E o vivo e puro amor de que sou feito,
Como a matéria simples busca a forma.(Luís de Camões)
Não desças os degraus dos sonhos
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos – onde
Os deuses, por trás de suas máscaras,
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco esse nosso mundo…(Mário Quintana)
A plenitude da vida tem
normas e não as tem,
é racional e irracional ...
Podemos estar certos de uma coisa:
quanto mais prolongarmos
o rumo escolhido pela razão,
tanto mais excluiremos a possibilidade
de viver a vida irracional, que, no entanto,
tem o mesmo direito de ser vivida.(Carl Gustav Jung)

Absinto

Belas formas, símile cadência.
Liberdade na falta de excesso
[de barroquismo depurado em tonto vinho]
em pleito de lua cheia.
Belas formas, símile cadência.
Assim... [o] absinto!

(Lis Barreto)
Os anjos vêm abrir os portões da alta noite,
justamente quando o sono é mais profundo
E o silêncio mais amplo.
Rodam as portas e suspiramos subitamente.
Chegam os anjos com suas músicas douradas,
a túnica cheia de aragens celestes e cantam
na sua fluída linguagem ininteligível.
Vê os anjos abrir os portões da alta noite.
E compreendemos que não há mais tempo,
que esta é a última visão, e que as nossas mãos
se levantam para os adeuses, e os nossos pés
se desprendem da terra, para o vôo anunciado
e sonhado desde o princípio dos nascimentos.
Os anjos nos estendem seus convites divinos.
E sonhamos que já não sonhamos.(Cecília Meireles)

sábado, 6 de março de 2010

O observador e o nada - I

O inseto me observa.
Me observa como se eu fosse um rio
e sou mesmo esse rio escuro e lamacento
que, águas podres, passa lenta, lenta serpente,
por baixo das pontes,
dos olhos do inseto que me observa,
dos móveis que em vão se arruínam.
Que passa por baixo da calçada
e exala o cheiro dos esgostos vivos.
.
Suas patas, antenas e asas se mexem,
fina engenharia de dobraduras em papel.
Mas ele não é papel,
embora transpareça uma finíssima seda,
a luz que só os insetos possuem,
seja a luz caramelo das baratas,
seja a luz de estrelas mortas dos besouros de
carapaças negras.
Mas o meu inseto,
o inseto que me observa,
tem outra claridade,
tem a luz azulada dos frágeis,
mas ainda assim me mete medo.
Da extremidade da minha cama,
do alto da ponte,
da lâmpada em que adeja,
ameaça.
Me ameaça.
Desenha em mim mapas com seus
olhinhos astutos.
Vai medindo meu corpo, como um soldado.
.
( ... )(Micheliny Verunschk) - "O Observador e o Nada".
O que ouviu os meus versos disse-me:
que tem isso de novo?
Todos sabem que uma flor é uma flor
e uma árvore é uma árvore.
Mas eu respondi: nem todos, ninguém.
Porque todos amam as flores por serem belas,
e eu sou diferente.
E todos amam as árvores por serem verdes
e darem sombra, mas eu não.
Eu amo as flores por serem flores,
diretamente.
Eu amo as árvores por serem árvores,
sem o meu pensamento.

(Alberto Caeiro)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Hoje, a lua, a sonhar, mais pálida e mais fria
Tem, reclinada sobre os coxins siderais,
O langor feminil de quem acaricia,
Antes de adormecer, os seios virginais.
Sobre o fofo cetim das nuvens, desmaiada,
Nos céus, passeando o olhar, vê surgirem visões,
Que argenteas, no palor da noite, iluminada,
Ascendem para o azul, como alvas florações.
Quando, ás vezes, na terra, amorosa e discreta,
Ela deixa cair uma gota de opala,
Uma lágrima irial, de tons de catassol,
Sobre a concha da mão, notâmbulo poeta
Toma-a, para, furtiva, ir piedoso guardá-la
Dentro do coração, escondendo-a do sol.(Charles Baudelaire)

quarta-feira, 3 de março de 2010

Aaron Jasinski

(...).
Tenho pensado se não guardarei
indisfarçáveis remendos das
muitas quedas, dos muitos toques,
embora sempre os tenha evitado
aprendi que minhas delicadezas
nem sempre são suficientes para
despertar a suavidade alheia,
e mesmo assim insisto - (...)(Caio Fernando Abreu)

terça-feira, 2 de março de 2010

Matéria de poesia

Todas as coisas cujos valores podem ser
Disputados no cuspe da distância
Servem para poesia
.
O homem que possui um pente
E uma árvore
Serve para poesia
.
Terreno de 10x20, sujo de mato - os que
Nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
Servem para poesia
.
Um chevrolé gosmento
Colecção de besouros abstémios
O bule de Braque sem boca
São bons para poesia
As coisas que não levam a nada
Têm grande importância
Cada coisa ordinária é um elemento de estima
.
Cada coisa sem préstimo
Tem o seu lugar
na poesia e na geral
.
O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, grampos,
Retratos de formatura
Servem demais para poesia
.
As coisas que não pretendem, como
Por exemplo: pedras que cheiram
Água, homens
Que atravessam períodos de árvore,
Se prestam para poesia
.
Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
E que você não pode vender no mercado
Como, por exemplo, o coração verde
Dos pássaros
Serve para poesia
.
As coisas que os líquenes comem
-sapatos, adjectivos-
têm muita importância para os pulmões
da poesia
.
Tudo aquilo que a nossa
Civilização rejeita, pisa e mija em cima,
Serve para poesia
.
Os loucos de água e estandarte
Servem demais
O traste é óptimo
O pobre diabo é colosso
Tudo que explique
O alicate cremoso
E o lodo das estrelas
Serve demais da conta
.
Pessoas desimportantes
Dão pra poesia
Qualquer pessoa ou escada
.
Tudo que explique
A lagartixa de esteira
E a laminação de sabiás
É muito importante para poesia
.
O que é bom para o lixo é bom para a poesia
.
Importante sobremaneira é a palavra repositório;
A palavra repositório que eu conheço bem:
Tem muitas repercussões
Como um algibe entupido de silêncio
Sabe a destroços
.
As coisas jogadas fora
Têm grande importância
-como um homem jogado fora
.
Aliás é também objecto de poesia
Saber qual o período médio
Que um homem jogado fora
Pode permanecer na terra sem nascerem
Em sua boca as raízes da escória
.
As coisas sem importância são bens da poesia
.
Pois é assim que um chevrolé gosmento chega
Ao poema, e as andorinhas de junho.(Manoel de Barros)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Confissão

Que esta minha paz e este meu amado silêncio
Não iludam a ninguém
Não é a paz de uma cidade bombardeada e deserta
Nem tampouco a paz compulsória dos cemitérios
Acho-me relativamente feliz
Porque nada de exterior me acontece...
Mas,
Em mim, na minha alma,
Pressinto que vou ter um terremoto!(Mário Quintana)